Maquiagem fecha porta de psiquiatra a depressivos

André Cáceres

Quem vê o sorriso estampado no rosto da maquiadora Marcella Baldoni, de 35 anos, não imagina o que ela enfrentou para conquistar a qualidade de vida que tem atualmente. Formada em Marketing, ela trabalhar em um banco com apenas 18 anos e, desde então, teve de se acostumar a uma rotina de trabalho exaustiva.

“Era muita cobrança. Eu trabalhava em uma área comercial em que as metas eram muito altas. Era estressante porque todo mês tinha que bater meta, senão eu podia ser punida”, recorda a paulistana, que atuou nesse banco por cinco anos, tempo em que teve de lidar com a pressão da vida corporativa.

Marcella passou a sofrer de depressão e se viu afastada da empresa durante seis meses. Ao final desse período, decidiu deixar o emprego. No entanto, começou a trabalhar em um setor não menos estressante: o varejo. Tornou-se compradora de duas das maiores redes da área no Brasil nos anos subsequentes. “Eu sofria muita pressão. Era complicado não ter ansiedade, tudo prejudicava”, relembra.

Marcella sabia que seu problema poderia tornar-se recorrente caso ela continuasse na rotina à qual estava submetida. “Quem passa por um processo de depressão é suscetível a manifestar outro ao longo da vida, e aí você tem sempre que ficar em alerta”, afirmou.

“A depressão muitas vezes é pontual, devido a uma situação externa. Se acabar essa situação, acaba a depressão. Também tem um caráter genético, de histórico familiar. Esse é o meu caso”, disse.

Quando ela tinha 27 anos, Marcella apresentou síndrome do pânico enquanto estava no trânsito e acabou se afastando do trabalho novamente. “Chegou um momento que eu não conseguia subir de posição porque as empresas não sentiam essa total confiança”, lamentou.

Esse foi o ponto de inflexão, em que a paulistana teve de demonstrar coragem para mudar completamente de vida. “Minha rotina me matava, aquilo me debilitava muito”, contou.

Ela teve de colocar a carreira e a saúde na balança. “Mesmo gostando de trabalhar com varejo, fiz faculdade, graduação, pós, tudo voltado para isso, as circunstâncias da minha vida chegaram a um ponto em que eu não conseguia mais. Tive que optar: ou a estabilidade de saúde, ou eu tinha que trabalhar muito. Cheguei à conclusão de que estava trabalhando para comprar remédio, pagar terapeuta”, disse.

Após sair do último emprego, em março de 2014, Marcella ficou tão surpresa quanto as pessoas ao seu redor quando se viu trabalhando como maquiadora. “Há cinco anos eu nem me maquiava, mas comecei a pesquisar o mercado e vi que a área da beleza era uma que crescia”, explicou a paulistana que concluiu o curso para exercer a nova profissão em quatro meses.

Marcella priorizou a qualidade de vida em detrimento de uma carreira sólida, e admite que no começo teve de conter gastos e adequar seu padrão de consumo à nova realidade. “Em vez de sair, você não vai comer fora, não vai comprar roupa. Em vez de comprar uma coisa, você compra outra mais barata. O primeiro ano foi mais difícil”, revelou.

Enquanto apertava o orçamento, a maquiadora trabalhava para aumentar a carteira de clientes e conseguiu investir para estar em uma feira de noivas. “Deu supercerto”, comemora. “Hoje tem uma equipe de cinco pessoas comigo. Meu foco é noivas, vou até a noiva, faço cabelo, maquiagem”, disse Marcella, que hoje trabalha menos e ganha mais do que antes.

A maquiadora criou um grupo no Facebook chamado Banco de Maquiadores Profissionais, que aglomera 4 mil maquiadores formados e capacitados. Ela diariamente fomenta o grupo com informações e atividades, e se orgulha de atuar como uma liderança na área. “Eu me cobro muito, sou uma pessoa que quer o melhor resultado”.

Antes de se descobrir maquiadora, ela chegou a passar por cinco psiquiatras em dez anos. “Tentei de todas as formas encontrar alternativas que me fizessem manter estável para continuar trabalhando. Terapias mil, tratamentos espirituais, soluções diversas. Tentei de tudo, porque no fundo não aceitava que era algo biológico meu. Eu achava que alguém não estava conseguindo diagnosticar direito”, contou Marcella. “Um dos fatores primordiais que me fez mudar é entender a essência da minha vida”, finalizou.

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