Ponto em comum

Montagem de Encontro.com sobe aos nossos palcos

Leandro Nunes

Quando o criador de “House Of Cards”, Beau Willimon, estava à procura de uma equipe para levar a segunda temporada da série adiante, alguém entregou para ele o texto da peça Sex With Strangers. Diferenças à parte, a obra escrita por Laura Eason focava na relação íntima e conflituosa entre um casal. Não demorou muito para que Willimon atestasse a qualidade da obra e convidasse a dramaturga para se juntar na criação da trama entre os personagens de Kevin Spacey e Robin Wright, cuja ambição levaria o casal ao maior posto político no país mais poderoso do mundo.

No caso de “Sex With Strangers”, os interesses do casal da história são de uma grandeza bem distinta, até menor. A peça, que passou por Nova York, Sidney e Buenos Aires, chamou a atenção da atriz Deborah Evelyn, que decidiu trazer a montagem para o Brasil, agora em cartaz no Teatro Vivo, como “Estranhos com”, que traz Deborah e Johnny Massaro em cena.

A peça dirigida por Emílio de Mello narra a história de amor entre duas figuras de mundos distintos. Massaro interpreta William, um jovem blogueiro cujo sucesso se deu ao publicar relatos sobre suas experiências sexuais. Já Deborah encarna o papel de Olívia, uma professora de literatura e escritora, mais velha que o jovem. Autora de diversos livros, ela tem talento, embora não tenha milhões de seguidores e fãs como o rapaz. “Mas esse não é o primeiro conflito entre eles”, adianta a atriz.

Tudo começa com uma aposta criada pelo rapaz com seus amigos. Ele vai relatar a experiência de ficar com uma mulher por dia, durante um ano. Enquanto a fila anda, um dos livros de Olívia chega até William. “Ele logo se apaixona pela escrita da autora e começa a buscar outras obras e como entrar em contato com ela”, explica o ator.

Esse encontro se dará sem máscaras ou a proteção virtual obtida nos perfis na internet. “Aquilo é só aparência”, ressalta Massaro. “Podemos ser qualquer coisa nas redes sociais, o que não acontece pessoalmente.” Avessa à internet e seus fetiches, a escritora passa a descobrir a real identidade e os interesses do rapaz. “A conexão entre eles acontece muito rapidamente. Existe um mistério e o desconhecido faz com que o casal se atraia”, conta a atriz.

O que a plateia acompanha no palco é essa reunião numa pousada de campo, numa noite de chuva. A despeito do abismo de diferença entre o sucesso virtual de William e da capacidade intelectual de Olívia, o casal acaba se envolvendo sexualmente. “Ele diz que já viu alguns livros dela, se interessa pelo modo que ela escreve e revela que está criando um aplicativo para dar voz a novos autores. Já ela mergulha no vigor do rapaz”, explica Massaro. Deborah acrescenta que a diferença entre gerações marca o grande conflito. “Eles estão em momentos distintos em suas vidas. Apesar de estarem unidos pelo desejo, eles não conseguiriam habitar o mesmo mundo.”

A montagem marca o encontro da dupla pela primeira vez nos palcos. Na novela “A Regra do Jogo”, a atriz viveu Kiki, a filha desaparecida da família Stewart, e Massaro foi seu sobrinho, filho da bipolar Nelita, vivida por Bárbara Paz, papel que inicialmente seria de Deborah.

“Apesar de ser tão jovem”, começa a atriz, “o Johnny tem uma grande maturidade como ator. Sempre percebi isso, o que confirmou minha escolha de contracenar com ele nessa peça.” Tal qual Olívia e William, os atores enxergam que a conexão é positiva. “Eles ganham muito nessa relação. Ambos encontram no outro o que falta em si”, confirma Massaro. “Eles saem dos extremos para encontrar um ponto comum”, completa Deborah.

Com Emílio de Mello, a experiência é extensa. Deborah foi dirigida por ele em “Deus da Carnificina”, de Yasmina Reza, em 2010. E, antes disso, em 2005, eles dividiram o palco em Baque e, em 2014, em “Hora Amarela”.

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