Na torre antiga, em noite fria,
gemia o vento em agonia;
e pelas frestas do aposento
entrava um lúgubre lamento.
Meu coração, sem esperança,
era um sepulcro de lembrança.
As sombras vinham, lentamente,
rasgando os véus da minha mente;
e cada espectro, em seu rumor,
trazia o rosto de uma dor.
Então clamei à noite escura:
— “Não haverá para mim cura?”
Mas, quando o medo, como um corvo,
pousou no peito, negro e torvo,
uma centelha, pequenina,
brilhou no alto da cortina.
Não era o fogo de uma vela,
mas algo eterno além da estrela.
A luz cresceu, solene e pura,
ferindo o ventre da amargura;
rompeu as trevas do salão,
tocou as pedras e o chão,
e fez fugir, em desatino,
cada fantasma do destino.
As sombras, antes tão imensas,
tornaram-se pequenas, densas;
recuaram diante do fulgor,
pois nenhuma noite vence o amor.
E o corvo, mudo, abriu as asas,
deixando o medo e suas casas.
Então compreendi, ajoelhado,
que mesmo o espírito cansado,
quando recebe um só clarão,
reencontra a vida e a direção.
Pois basta um raio verdadeiro
para incendiar o mundo inteiro.
E onde a escuridão dizia:
— “Aqui termina a tua via”,
a luz respondeu, firme e serena:
— “A noite é longa, mas pequena.
Nenhum abismo, por mais profundo,
resiste à luz que salva o mundo.”

