O preço de não se posicionar

Eduardo Martínez
6 minutos de leitura
Marina Dutra - Foto Irene Araújo

Tem gente que passa a vida tentando não incomodar ninguém e, sem perceber, vai se tornando a pessoa que mais se abandona.

Evitar conflitos pode parecer uma forma de manter a paz. Você pensa duas vezes antes de responder, engole uma opinião para não criar discussão, aceita um pedido mesmo estando cansado, deixa passar uma atitude que incomodou e prefere ficar quieto porque não quer magoar ninguém. No começo, parece apenas uma escolha. Com o tempo, pode se transformar em um jeito de viver.

O problema é que toda vez que você se cala para evitar um conflito externo, pode estar criando um conflito dentro de si. E isso vai acumulando.

Você diz que está tudo bem quando não está. Concorda quando gostaria de discordar. Faz o que não queria fazer e depois se sente sobrecarregado. Percebe que alguém ultrapassou um limite, mas não fala nada porque já imagina a discussão que poderá acontecer. Vai cedendo aqui, ali, mais uma vez, até chegar a um ponto em que nem você consegue mais entender por que está tão irritado, tão cansado ou tão insatisfeito.

Muitas vezes, a explosão que acontece por uma pequena coisa não nasceu daquela pequena coisa. Ela é o resultado de tudo aquilo que foi sendo engolido antes.

É importante entender que se posicionar não significa ser grosseiro, criar conflito por qualquer motivo ou impor a sua vontade.

Posicionamento é conseguir dizer o que pensa, o que sente, o que aceita e o que não aceita sem precisar atacar o outro e sem precisar se diminuir para ser aceito.

Mas para algumas pessoas isso é muito difícil. Talvez porque aprenderam cedo que contrariar alguém traz consequências. Talvez tenham crescido tentando evitar brigas dentro de casa, buscando aprovação ou acreditando que ser uma pessoa boa significa estar sempre disponível. Talvez tenham associado amor à capacidade de ceder. Então, quando precisam dizer não, sentem culpa. Quando discordam, sentem medo. Quando colocam um limite, começam a pensar se não estão sendo egoístas.

E assim vão construindo relacionamentos nos quais o outro conhece muito bem suas concessões, mas pouco conhece suas necessidades.

É aí que não se posicionar começa a cobrar um preço. No relacionamento, você pode aceitar coisas que machucam para não perder a pessoa. Na família, pode assumir responsabilidades que não são suas. No trabalho, pode carregar mais do que deveria porque não consegue dizer que chegou ao seu limite. E, consigo mesmo, pode começar a desenvolver uma relação de desconfiança, porque tantas vezes ignorou aquilo que sentia que já não sabe mais se pode confiar nas próprias necessidades.

Até que um dia surge aquela sensação de que ninguém considera você.

Mas será que você tem mostrado ao outro, com clareza, quem você é e quais são os seus limites?

Essa pergunta pode ser desconfortável, mas é necessária. Não porque a responsabilidade por tudo seja sua, e muito menos porque as pessoas tenham o direito de ultrapassar seus limites. Mas porque existe uma diferença entre ser desrespeitado e nunca deixar claro o que você não aceita.

Também precisamos entender que se posicionar pode mudar relações. Algumas pessoas vão compreender e respeitar. Outras podem se incomodar justamente porque estavam acostumadas com a sua disponibilidade, com o seu silêncio ou com a sua facilidade em ceder. E isso não significa necessariamente que você esteja fazendo algo errado. Às vezes, quando você muda a forma como se coloca, o relacionamento precisa encontrar uma nova maneira de existir.

Talvez o maior desafio seja aceitar que você não conseguirá evitar que todos fiquem contrariados com as suas escolhas. Você pode falar com respeito, agir com responsabilidade e ainda assim alguém pode não gostar. Isso faz parte da vida.

Na terapia, muitas vezes precisamos olhar para a raiz dessa dificuldade. Por que dizer não parece tão perigoso? Por que desagradar alguém provoca tanta culpa? O que você acredita que pode acontecer se deixar de ser a pessoa que sempre entende, sempre ajuda e sempre cede?

Porque, no fundo, aprender a se posicionar não é apenas aprender a falar. É aprender a permanecer consigo mesmo enquanto fala.

E talvez você precise começar por uma pergunta simples: quantas vezes você chamou de paz aquilo que, na verdade, era apenas medo de se posicionar?

Não é preciso começar enfrentando grandes conflitos. Comece percebendo onde você diz sim querendo dizer não, onde aceita por medo, onde se cala para não decepcionar e onde está vivendo de acordo com expectativas que já não fazem sentido para você.

A sua vida também precisa caber dentro das escolhas que você faz para manter a paz com os outros.

Porque evitar conflitos pode preservar uma relação por algum tempo. Mas passar a vida inteira evitando desagradar pode custar algo muito maior: a relação que você tem consigo mesmo.

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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa

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