A imensidão do meu mapa

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Dona Irene - Foto Francisco Filipino

Nasci em Teresina, mas nunca soube pertencer a um lugar só. Talvez quem nasce perto da divisa entre dois estados entenda melhor essa sensação. Às vezes, a fronteira existe no mapa, mas não dentro da gente. Vim ao mundo no Piauí quase por uma casualidade geográfica, mas cresci cercada pelo Maranhão, por seus costumes, seus sabores, seus jeitos e suas histórias. Por isso, quando me perguntam de onde sou, a resposta nunca parece caber em uma palavra.

Agora tenho uma filha gaúcha e sinto uma pequena obrigação amorosa de lhe ensinar que nascer em uma terra também pode significar carregar um pouco dela. Eu mesma ainda estou tentando compreender a cultura do Rio Grande do Sul, seus códigos, suas tradições e a maneira como os gaúchos constroem o próprio pertencimento.

Mas houve ainda Brasília. Morei mais de vinte anos no Distrito Federal e, entre todos esses pertencimentos, confesso que gosto especialmente de dizer que sou candanga. Talvez porque Brasília tenha me acolhido, talvez porque ali eu tenha vivido boa parte da vida adulta, mas acho que é principalmente pela beleza da palavra.

Para mim, candango é quase um gentílico afetivo. Não diz apenas onde alguém viveu, mas fala de acolhimento, escolha e vínculo. Brasília, cidade feita por gente que veio de todos os cantos, acabou criando um nome justamente para quem chegou de fora e decidiu construir ali a própria vida.

E acho bonito demais isso. Ser candango é quase dizer: eu não nasci aqui, mas escolhi ficar. Escolhi viver, amar, trabalhar, criar lembranças e chamar este lugar de meu.

Posso ter nascido piauiense, carregar o Maranhão inteiro dentro de mim e ainda estar aprendendo o que significa ter uma filha gaúcha e conviver com uma cultura que não é a minha de origem. Mas ser candanga talvez seja o pertencimento que mais me representa, justamente porque não depende de certidão de nascimento. Porque nascer em um lugar é circunstância. Pertencer, às vezes, é escolha. E há lugares que não nos recebem no nascimento, mas nos acolhem tão profundamente que acabam nascendo dentro da gente.

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