Algum dia a vida fará sentido. Enquanto as coisas não se encaixam, vamos rir de nossas confusões. Deliberadas ou não, o ideal é aproveitar o momento até que consigamos perceber que tudo acontece por alguma razão. Faço como Salvador Dali, para quem é salutar a confusão, o equívoco ou o engano sistemático. Isso liberta a criatividade. Afinal, o que é contraditório gera vida. E ela (a vida) é uma gigantesca e bela confusão. Por isso, não tenho medo de me meter em confusão, tampouco cuidado com o que digo. Conforme o versículo 15:11 de Mateus, o que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai. Sem blasfêmias, contamina, mas não torna ninguém mais ou menos puro.
Eis a razão pela qual o estado confusional ou de delirium é, na maioria das vezes, mais engraçado do que abusivo. É quando começamos a falar mais com os pensamentos do que com as pessoas. Nesse estágio, dificilmente conseguimos transformar informação dada em informação truncada. O que fazer? Relaxar, rir e, se puder, gozar próspera e abundantemente. Portanto, melhor confundir alhos com bugalhos do que eleitores com palhaços. Pior de tudo é confundir golpe com democracia e tentar desconstruir vitórias acachapantes exclusivamente para tentar explicar derrotas aviltantes e provavelmente repetitivas.
Dito isso, começo por lembrar que o inferno astral nada tem a ver com o sol, a lua ou os planetas. É apenas o período que antecede o dia em que pensaremos dez vezes dez mil vezes antes de votar em pessoas que se imaginam mais poderosas do que realmente são. É uma definição autoexplicativa. Basta que recuemos três ou quatro anos no tempo. Talvez uma referência direta ao perigo que significa votar no clã que já confundia o Brasil do Antônio com a auréola do “Tonho”? Que Deus o tenha! Ele viajou tanto na maionese que chegou a entender que afogar o ganso no braseiro era a mesma coisa que entubar o ganso no brasileiro. Nada de anormal para quem estimulou o povo a tomar chá de Pau Mulato para curar hemorróida branca.
O negócio ficou tão sério que parte dos nativos começaram a achar bonito confundir a grande obra do Mestre Picasso com o trem grande do mestre de obras. Essa turma alcançou o limite da perversão religiosa quando, em nome de Jesus, começou a exigir que as lojas da Havan dessem exclusividade aos crucifixos da marca INRI. Apopléticos, inapetentes e indiferentes à Pátria Amada, alguns partiram para o tudo ou nada no momento exato em que perderam os cuidados e correram o risco de, em troca da defesa do anel de ouro das Arábias, terem de negociar o anel de couro na Papuda. Trata-se de uma ilação, é claro, mas para eles tudo é possível.
Misóginos por definição, acreditavam que molhar o biscoito no copo quente de café era a mesma coisa que molhar o biscoito no corpo quente da mulher. Sem conhecimento de causa e absolutamente alheios à necessidade de preservação do meio ambiente, nunca se aperceberam que pomba e periquita, aves comuns em qualquer bioma do país, especialmente no Cerrado, não podem ser comparadas à parte pudenda do público feminino. Imbrochavelmente preocupados somente com o próprio umbigo, jamais contiveram a picardia do líder mitológico de coturno, para o qual descabelar o palhaço no picadeiro era sinônimo de descascar a banana no couro do brasileiro. De confusão em confusão, voltamos ao mesmo estágio de 2022, quando chegaram a confundir o Brasil com a Casa de Mãe Joana, isto é, em um país sem regras e onde reina a bagunça e a desorganização.
Perderam o timing e a eleição. Como pregam os livros de autoajuda, pensamentos abstratos, frases desconexas e palavras sem sentido são características dos momentos de reflexão de qualquer pessoa que fala mais com os mitos do que com os vivos. A esses é permitido tudo, inclusive confundir Jojo Todynho depois da cirurgia com Angelina Jolie. Estejam onde estiverem, quando nos percebem eles gritam: “Ai, que tiro foi esse?”. E a pipoca do Carvalho? Melhor pular essa. Tipos assim são capazes de traduzir em segundos o termo hemorroida para o japonês: Doku Chai Chang. É a prova de que nada de bom sai da cabeça de quem dorme de pijama de seda e de óculos escuros, usa pantufas e se acha superior à tribo que chupa manga e engole o caroço. Como eles querem voltar, todo cuidado é pouco. É o dejavu alertando para a volta do descompasso entre o que queremos e o que poderemos viver. Se Deus quiser, jamais-vu!
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

