A fazenda ficava escondida entre morros, no interior de Minas Gerais. Tinha uma sede antiga de paredes grossas, um curral de madeira escura e, atrás de tudo, um lago pequeno e fundo, cercado por árvores que nunca pareciam crescer direito. A água era quieta demais. Nem vento, nem pássaro ousavam perturbar a superfície.
Clara era a única filha do coronel Augusto. Moça alta, de cabelos longos e pretos, voz baixa e um jeito de olhar que fazia as pessoas desviarem o rosto. O pai a tratava como propriedade: falava pouco, exigia muito e já havia combinado seu casamento com o filho de outro fazendeiro da região. O noivo se chamava Vicente. Era bonito, vaidoso e covarde.
Na véspera do casamento, Vicente apareceu na fazenda bêbado e disse, na frente de todos, que não queria mais a noiva. Que Clara tinha “olhos de gente triste” e que ele preferia uma mulher que risse. O coronel ficou vermelho de vergonha. Gritou com a filha, como se a culpa fosse dela. Clara não respondeu. Apenas saiu pela porta dos fundos e caminhou até o lago.
Ninguém a viu entrar na água.
No dia seguinte, encontraram o vestido branco boiando perto da margem. O corpo nunca apareceu. O coronel proibiu que se falasse o nome da filha. Mandou tapar o caminho que levava ao lago e ameaçou açoitar quem desobedecesse. Com o tempo, a fazenda foi ficando vazia. Os peões pediam as contas. As mulheres da casa cochichavam e faziam o sinal da cruz. O coronel envelheceu rápido, sozinho, bebendo cachaça na varanda até cair no sono.
Anos se passaram.
Foi então que os primeiros relatos começaram.
Um vaqueiro chamado Tadeu jurou ter visto, certa noite, uma mulher parada na beira do lago. Cabelos longos, vestido claro, penteando os fios com os dedos como se estivesse diante de um espelho. Quando ele se aproximou, ela ergueu o rosto. Tadeu disse que os olhos dela não tinham cor. Eram só reflexo da água. Ele correu. Na manhã seguinte, encontrou pegadas molhadas subindo o barranco até a sede.
Outro peão, mais novo, chamado Lúcio, escutou uma voz cantarolando. Era uma canção antiga, sem letra clara, só melodia. Ele respondeu, achando que era brincadeira de alguém. A voz parou. Depois voltou, mais perto:
Vem…
Lúcio deu um passo. A água se moveu sozinha. Ele só não entrou no lago porque o cavalo empacou e relinchou de medo.
O coronel, já velho e doente, mandou chamar um padre. O padre abençoou a casa, jogou água benta no terreiro e se recusou a chegar perto do lago. Disse apenas:
Tem coisa aqui que não quer descanso.
Na última noite de vida do coronel Augusto, a casa inteira escutou o canto. Era mais alto. Mais claro. Vinha do lago e entrava pelas frestas das janelas. O velho se levantou da cama, cambaleando, e foi até a porta dos fundos. Ninguém teve coragem de segurá-lo. Ele caminhou até a beira da água, descalço, e parou.
Alguns dizem que ele falou o nome da filha.
Outros juram que apenas estendeu a mão.
Pela manhã, encontraram o corpo do coronel flutuando no meio do lago, de bruços, como se tivesse sido puxado. O vestido branco de Clara nunca mais foi visto boiando. Mas a mulher continua aparecendo.
Os mais antigos da região ensinam:
Nunca olhe diretamente para o reflexo da água depois que o sol se põe.
Nunca responda se escutar alguém cantar.
E, se por acaso uma mulher de cabelos longos estender a mão para você… não aceite.
Porque o espelho d’água não devolve o que engole.
Apenas espera o próximo.


25/09/2026
“A MULHER DO… CONTO”
O conto de LUZIA COUTO é realismo mágico na essência. Adicione pequenas camadas de Gabo Marques, Guimarães Rosa e Allan Poe e as noites de Alvarez de Azevedo e pronto: a poção alquimica dá luz `a escrita de Luzia Couto. E com a marca pessoal dela.
Como luz pura, farol que instiga, arrepia, surpreende e encanta. Que belo/estranho, matuto/poético repleto de mistério e melodias entre frases da mais rica tradição oral.
Conta, conta, conta mais, querida Luzia…
Afinal, como nos iluminou o Gabo Garcia Marques: Viver é mesmo para Contar.
Gratíssimo!
(Gilberto Motta)
Meu querido amigo, fico lisonjeada com teu carinho em ler meus humildes textos, não cursei faculdade, não conheço a magnitude das letras jas escritas por tantos, mas amo ler e escrever histórias que ouvi em minha infância.
Sou grata por ter amigos como você que me incentiva a não parar. Gratidão pelo carinho, um abraço!