Dona Iaiá do Bexiga

Eduardo Martínez
5 minutos de leitura
Gilberto Motta - Texto e Foto

Morei muitas vezes na cidade de São Paulo. Tempos alternados.

Fui parar por lá no meio dos anos 70. Fiz cursinho para o Vestibular e depois cursei jornalismo na Cásper Líbero. São Paulo são muitas cidades e universos.

Adorava sair vagando pela cidade, assim, sem rumo certo. Pegava um ônibus sem saber para onde; descia ao metrô e zás… mais sem rumo ainda!

Nas andanças, fui garimpando histórias e causos contados pelos anônimos que eu encontrava pelas ruas, praças, cafés e bares. A lenda de Dona Iaiá do Bixiga é uma delas. Prontos aí?

Então vamos lá:

“Ela aparece lá na varanda do Casarão todas as noites. Vestida de branco e acalentando um bebe no colo que não existe. Juro! Eu já vi ela, sim!” 

                      (Matilde, moradora do bairro do Bexiga SP)

A primeira vez que passei em frente ao casarão, na rua Major Diogo, o coração do velho Bixiga – hoje Bela Vista -, o bairro italiano e boêmio da capital paulista, não dei muita bola. Casarão antigo, preservado, onde, hoje, funciona um instituto cultural da USP.

Parei no botequim do português, na esquina da rua com a pracinha central e alguém me serviu uma cerveja. E logo me perguntou:

— Você não é daqui, né? Veio ver o casarão?

Olhei meio sem saber o que dizer e respondi:

— Sim…Não! Não sou daqui, moro na Liberdade, o bairro japonês. Casarão?

Em alguns minutos, Daniel, o garçom, contou-me a história do Casarão Mal Assombrado de Dona Iaiá do Bexiga. Bastou para que aquela descrição viraria uma faísca a incendiar a minha imaginação do jovem repórter começando a cursar jornalismo na melhor faculdade de comunicação do país, a Cásper Líbero, ali pertinho, na Avenida Paulista.

Iaiá, filha de fazendeiros ricos paulistas, passou por tragédias ainda menina. Perdeu três irmãos mortos por doenças contagiosas. Os pais morreram logo depois. Ela, sozinha, herdou a fortuna e o casarão. Com o tempo e a solidão, Iaiá foi pirando e a Justiça a rotulou como incapaz: loucura. Por 40 anos viveu trancada dentro do casarão, cuidada por serviçais impessoais. Morreu em 1961. Desde então, o que era história familiar virou lenda urbana.

Os meus olhos de jovem repórter em formação brilharam. “Taá aí… uma história que eu tenho que pesquisar e contar!”

Voltei várias vezes ao Bexiga. Ouvi pessoas, depoimentos e causos, porém tudo já dentro das narrativas de lendas urbanas. Aquelas que um conta para o outro e vão se perpetuando como fatos, mas são lendas.

Três meses após, escrevi um pequeno ensaio aprovado na cadeira de Grandes Reportagens, do inesquecível professor José Hamilton Ribeiro.  Ficou um gosto de quero mais. Dona Iaiá foi vítima do preconceito da época – e ainda de agora – em relação à doença mental. Loucura! E ponto: confina. Presidiária única em seu próprio casarão.

Quaisquer dias desses, eu prometo, escreverei aqui a história completa.

Dona Iaiá jamais saiu de minha cabeça. Personagem incrível que, mesmo depois de morta, ainda embala no colo o bebe que nunca teve.

Voltei lá ao Casarão nas madrugadas do Bexiga, mas nunca vi a mulher de branco na varanda. Hoje, vivendo bem longe de Sampa, sinto vontade de retornar à rua Major Diogo no Bexiga para observar.

Sei – sinto mesmo! – que ainda a verei embalando o bebe e ela me jogará um terno beijo.

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Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Acredita nas lendas urbanas e em todas as narrativas. Vive na Guarda do Embaú, vilarejo de pescadores no Sul de SC. 

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2 Comentários
  • Meu amigo Gilberto, adorei a lenda da Iaiá do casarão do bexiga..
    Imagino o que um repórter cheio de vontade mostrar seu talento poderia fazer na ocasião.

    Magistral letras! Parabéns!

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