O naturalista inglês Charles Darwin publicou em 1859 seu livro A origem das espécies, obra fundamental para o entendimento da evolução dos seres vivos. Quanto a mim, escrevi e postei esta fábula despretensiosa sobre a rebelião das espécies, no caso a espécie felina e a minha, a espécie humana – que, unidas, jamais serão vencidas. Pelo menos no meu muquifo.
Mencionei, no conto A pessoinha, que minha neta descolou um gato novo que recebeu dois nomes: Bruce Wayne, dado por ela, e Ponciano ou Ponci, nome gatal entusiasticamente aprovado por mim. Acrescentei que “o que o faz babar de prazer é quando o cumprimento parafraseando as palavras que Zé Cândido (autor do romance O coronel e o lobisomem) colocou na boca do coronel Ponciano para dar bom dia a seu adorado galo de briga, o capitão Vermelhinho Pé de Pìlão:
— Bom dia, seu Ponci (ou seu Ponciano). Como vai sua pessoinha?”
Pois bem, a pessoinha cresceu, está virando uma pessoona. Outro nome me parece hoje bem mais adequado: Átila, o flagelo dos gatos. E do escravo humano.
O problema é que Bruce/Ponci/Átila é um gato cartesiano, sua máxima, parafraseada do “Penso, logo existo” de Descartes, é “Como, logo existo”. Enquanto os demais gatos da casa rodeiam o pote de ração, imaginando ser uma presa abatida, a ser saboreada com vagar, Ponci vai direto à vasilha e manda ver. As outras ferinhas, escandalizadas, davam-lhe patadas para ensinar boas maneiras, mas hoje não se atrevem.
Outra máxima cartesiana do monstrinho é “Me exercito, logo existo”. Na hora de dormir, ele ficava me dando lambidinhas, eu não conseguia repousar. Então lançava-o longe – e ele adorava, voltava para mais exercícios de arremesso de gato. A fórmula muita ração + exercícios noturnos o tornou bem forte, e ele passou a baixar a porrada na gataiada.
Certo dia, Pantera, que havia se tornado uma das vítimas preferenciais de Ponci – ambos são negros, ela parece mãe dele, referências freudianas a Édipo talvez fossem esclarecedoras – procurou-me e desabafou:
— Escravo, nenhum de nós aguenta mais. Vamos acabar com ele!
— Nada de matar – argumentei. – Mas uma boa surra com certeza ajudaria…
Foi esse o primeiro lance da união das espécies rebeladas contra Átila, o flagelo dos gatos e do escravo humano.
No próximo movimento, recorrendo a minhas experiências de luta contra a ditadura e militância em partidos clandestinos, atribuí nomes de guerra à gataiada. Nomes que homenageavam luminares do movimento operário. As ferinhas adoraram.
— Agora sou Rosa Luxemburgo! – proclamava Pantera, toda pimpona.
— E eu, Karl Marx! – declarava Prince, todo pimpão.
Desnecessário dizer que o objetivo do codinome, resguardar a identidade do(a) militante, foi solenemente ignorado.
Como, entre os conspiradores, eu era o único a ter polegares opositores, coube-me a parte decisiva do projeto. Na hora prevista, os gatos, como quem não quer nada, rodearam o flagelinho. Peguei um pano preto e o lancei sobre ele, segurando firme as pontas; imediatamente os oprimidos deram uma surra de criar bicho no opressor, temporariamente indefeso.
Quando acabou, Bruce/Ponci/Átila passou um dia inteiro bufando de ódio, esgueirando-se junto às paredes do apartamento. Mas parafraseou outra máxima cartesiana, “Eles são muitos, logo desisto”, e melhorou seu comportamento. No fundo, não era mau, apenas jovem, e a vida, um brinquedo pra ele. E era tão divertido bater na gataiada…
O comportamento dos conspiradores vitoriosos para comigo também mudou. De início, fui tratado, respeitosamente, de “companheiro humano”; mas o respeito subiu no telhado, chamaram-me, em rápida sucessão, de “companheiro”, “companheiro escravo” e, por fim, “escravo”, no tom autoritário de sempre. Nem mesmo “o de sempre, ao molho”. Sem molho. Em sete dias, tudo havia voltado ao normal.
Fazer o quê? Revoluções podem ser traídas, como ensinou Leon Trotsky. E velhos hábitos custam a morrer.


Gatos, sei bem como são kkkkkkk