Há uma guerra sem pólvora sendo travada no Nordeste, onde os canhões são microfones, as trincheiras viraram palanques e os soldados carregam celulares em vez de fuzis. No alto das muralhas, uma estrela vermelha ainda ilumina boa parte da paisagem, mas, cá embaixo, um exército de camisas verdes, amarelas e azuis resolveu testar a resistência das pedras, justamente no momento em que Flávio Bolsonaro entrou no território.
Não que o candidato do PL queira conquistá-lo de uma vez. Seria pretensão demais imaginar que algumas carreatas, discursos e apertos de mão fariam desaparecer décadas de uma relação eleitoral construída pelo PT com o eleitor nordestino. Porém, Flávio entrou para cercar, beliscar votos, abrir pequenas brechas, como no Maranhão, onde antes parecia existir uma muralha.
Há simbolismo nessa incursão, claro. É a terra onde Luiz Inácio Lula da Silva continua eleitoralmente forte e também o estado de origem de Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal e personagem transformado pelo bolsonarismo em um de seus antagonistas políticos. Flávio Bolsonaro desembarcou em São Luís depois de percorrer outros pontos do Nordeste. A campanha do PL passou nas últimas semanas por Alagoas, Ceará, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte e Maranhão.
É uma espécie de marcha sobre território adversário, embora ninguém deva confundir incursão com conquista. No Maranhão, a fortaleza lulista permanece de pé, com pesquisas recentes mostrando vantagem do presidente. Em levantamento citado neste mês, Lula aparecia com 58% das intenções de voto contra 20% de Flávio.
Já Pernambuco é outra história carregada de simbolismo. É a terra onde Lula nasceu antes de pegar a estrada para São Paulo. Ali, pelo menos por enquanto, o filho pródigo continua recebendo tratamento eleitoral de filho da casa. Pesquisa AtlasIntel divulgada nesta semana deu a Lula 58,3% no primeiro turno, contra 29,9% de Flávio Bolsonaro. Num eventual segundo turno, seriam 60,5% contra 32,7%.
Só que eleição nacional não se decide apenas contando quantos gols foram feitos em Pernambuco. Decide-se somando cada voto de cada urna, do Oiapoque ao Chuí. E é justamente aí que aparece a estratégia bolsonarista. Flávio não precisa necessariamente derrotar Lula no Nordeste, mas, do ponto de vista de sua campanha, perder por menos.
Em 2022, Lula obteve 69,34% dos votos válidos nordestinos no segundo turno, contra 30,66% de Jair Bolsonaro. Foram quase 39 pontos percentuais de diferença numa eleição nacional decidida por margem muito mais estreita. A ofensiva atual do PL procura diminuir esse fosso. É uma matemática menos épica do que parece, porque o general não precisa derrubar o castelo, bastando impedir que de dentro dele saia o mesmo contingente de soldados.
Pelo andar das carroças, a Bahia, por sua vez, deve virar palco de uma das batalhas mais interessantes do tabuleiro da sucessão. A estrela petista ainda brilha sobre o estado; não apagou nem virou lamparina, como aponta Pesquisa Futura divulgada no dia 21, que deu a Lula 50,6% e a Flávio Bolsonaro 30,1% no primeiro turno. Num segundo turno entre ambos, 56,2% a 36,8%.
Mas existe um detalhe digno de lupa. No levantamento anterior do mesmo instituto, Lula tinha 52,5% na estimulada; agora aparece com 50,6%. Na espontânea, passou de 54,7% para 49,8%. Flávio, nesse último quesito, foi de 26,4% para 28,1%. São movimentos que precisam ser lidos dentro das margens e metodologias das pesquisas, mas ajudam a explicar por que a Bahia entrou com tanta força no radar das duas campanhas.
É verdade que a estrela continua no céu baiano; apenas já não parece prudente ao PT contemplá-la deitado numa rede, imaginando que seu brilho seja eterno, porque o mapa eleitoral está se mexendo.
Pesquisas recentes ainda colocam Lula à frente nos nove estados do Nordeste. Portanto, falar em Nordeste bolsonarista seria transformar desejo partidário em notícia. Mas também seria fechar os olhos ignorar a movimentação adversária. Flávio atravessou cidades nordestinas justamente procurando aquilo que um candidato procura quando sabe que dificilmente vencerá determinado território. Para ele, o importante é diminuir o prejuízo na região, uma espécie de cofre eleitoral, onde Lula tem a chave e Flávio tenta descobrir a combinação.

A chegada de Flávio ao Maranhão carrega uma urna de simbolismo. O filho de Jair Bolsonaro pisa numa terra profundamente lulista e politicamente associada a Flávio Dino enquanto tenta demonstrar que nenhum território deve ser considerado proibido. Não vale dizer que o candidato do PL tenha conquistado a praça, mas já se observa que ele decidiu bater à porta.
O problema para Lula é que, numa eleição apertada, não é necessário que o adversário leve embora a casa. Às vezes basta sair carregando alguns móveis. Tanto que Pernambuco ainda parece uma cidadela vermelha, como o Maranhão, e a Bahia permanece favorável ao petista nos levantamentos disponíveis. Mas o Nordeste de 2026 está sendo disputado rua por rua, voto por voto, percentual por percentual. De um lado, Lula tenta preservar a velha muralha e do outro, Flávio procura arrancar-lhe alguns tijolos.
Quando chegar a noite de 4 de outubro, saberemos se o exército bolsonarista apenas levantou poeira diante das muralhas nordestinas, ou se conseguiu abrir pequenas brechas suficientes para mudar a matemática do restante do Brasil. Porque, nesta guerra sem pólvora, ninguém precisa conquistar o Nordeste inteiro; às vezes, alguns pontos percentuais valem um território.

