Os pássaros acordavam lá fora
Em seus ninhos,
Quando tu, discretamente,
Já não existias.
O sol, tímido, não aqueceu pela última vez
Teu corpo ágil.
A voz rouca que emitias
Ouvi, ainda, por breves instantes,
Enquanto tu te despedias.
Viveste um mundo abolido
De anos passados,
Do qual os rostos conhecidos
Haviam desaparecido.
Ficaste tu:
Segura, alerta e estável,
Repositório de colos e lugares
De que foste contemporânea.
Agora, reúne-te às Guerras Púnicas,
Às Cruzadas,
Às Grandes Navegações,
Às conquistas de Bonaparte.
E não és mais perigo para os pássaros
E lagartos do jardim.
És só afeto e memória.
Ficaste no puro amor
Em nós
Em mim.
Denguinho (que também era Clotilde, Pretinha, Den Den e Pretura)
* 2011
+ 24/9/2026
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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi.

