PT baiano tinha mesada do Master, diz Daniel Vorcaro; PF desconfia

Redação
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Marta Nobre - Foto José Cruz

O escândalo do Banco Master abriu mais uma frente no coração da política brasileira, deslocando o foco desta vez para a Bahia e alcançando o entorno do senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Senado.

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, afirmou em uma proposta de colaboração premiada que um grupo político ligado a Wagner recebia cerca de R$ 3 milhões por mês em vantagens indevidas relacionadas à operação do Credcesta na Bahia. A informação foi divulgada nesta sexta-feira (25).

A acusação é grave, mas exige uma ressalva de que não há, até agora, comprovação pública de que essa suposta mesada tenha efetivamente existido.

A proposta de colaboração de Vorcaro foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por insuficiência de elementos de corroboração. O próprio ex-banqueiro afirmou que não teria participado diretamente do suposto acerto nem presenciado sua celebração. Segundo seu relato, teria tomado conhecimento do esquema por intermédio de Augusto Lima, ex-sócio do Master e personagem central da expansão do Credcesta. Lima nega a acusação.

Portanto, o valor de R$ 3 milhões mensais deve ser tratado, neste momento, como uma acusação feita por Vorcaro em uma tentativa frustrada de colaboração premiada, e não como propina comprovada.

Isso, contudo, não encerra a história, porque a trilha que já estava sendo seguida pela PF. Antes mesmo da divulgação desse relato, a Polícia Federal já investigava relações entre Augusto Lima, pessoas próximas de Jaques Wagner e negócios associados ao Banco Master.

Em junho, uma nova fase da Operação Compliance Zero colocou Wagner entre os alvos de busca e apreensão. Uma das linhas de investigação apura as circunstâncias envolvendo um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões.

Segundo documentos da investigação, Wagner encaminhou a Augusto Lima, em novembro de 2024, informações sobre uma unidade do empreendimento Poème Horto, inclusive o número do apartamento, o contato da construtora e o preço de R$ 2,45 milhões. Posteriormente, investigadores identificaram novos diálogos relacionados ao imóvel.

Wagner nega ter recebido o apartamento como vantagem indevida. O senador afirmou que pretendia ajudar uma filha a adquirir o imóvel e que pediu a Lima, que atuava como investidor, que fizesse a aquisição para que posteriormente ele pudesse recomprá-lo. Também afirmou que jamais recebeu dinheiro do Banco Master.

A PF, porém, continua investigando as circunstâncias da negociação, e outra frente da investigação talvez seja ainda mais importante para compreender o novo relato de Vorcaro. A Polícia Federal identificou uma transferência de R$ 3,5 milhões da PKL One Participações, empresa ligada a Augusto Lima e associada ao Credcesta, para a BN Financeira, vinculada ao núcleo familiar de Wagner.

A operação ocorreu em outubro de 2025. Segundo decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou as buscas, a PF considera a BN Financeira uma empresa central na apuração dos pagamentos que teriam como destino pessoas do entorno familiar do senador. É nesse ponto que surge Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado de Jaques Wagner e secretário de Meio Ambiente da Bahia.

Mensagens obtidas pelos investigadores mostram Sodré cobrando pagamentos de Augusto Lima. Em setembro de 2025, ele avisou ao empresário que havia boletos elevados prestes a vencer. Lima respondeu mencionando dificuldades financeiras e relacionando a situação ao fracasso da operação de venda do Banco Master ao BRB. Pouco mais de um mês depois, ocorreu a transferência de R$ 3,5 milhões.

Para a PF, há suspeita de que os pagamentos possam não corresponder a serviços efetivamente prestados e tenham servido para conferir aparência legal a vantagens indevidas. Essa hipótese continua sob investigação e não representa uma conclusão judicial definitiva.

Mas o novo relato de Vorcaro ganha relevância investigativa porque o Credcesta aparece no centro do tabuleiro.Trata-se de uma plataforma de crédito consignado criada por Augusto Lima e que operou na Bahia antes de sua aproximação societária com Daniel Vorcaro.

Segundo decisão de André Mendonça citando as investigações da PF, foi por meio da PKL One e das operações de consignado que Augusto Lima e Wagner se aproximaram, inclusive em negócios relacionados a carteiras de crédito e à plataforma Credcesta.

Agora, Vorcaro afirma justamente que os supostos R$ 3 milhões mensais destinados ao grupo político de Wagner estariam relacionados à operação do Credcesta na Bahia.

Embora trate-se de uma acusação, e não prova, o fato cria uma interseção que os investigadores poderão explorar: o mesmo negócio citado por Vorcaro em sua acusação aparece em documentos e movimentações financeiras que já estavam sob investigação da Polícia Federal.

De um lado está a palavra de Daniel Vorcaro, com sua proposta de colaboração foi recusada, e ele próprio reconheceu não ter presenciado o suposto acordo envolvendo os R$ 3 milhões mensais. Sua versão dependeria, portanto, de comprovação independente. Do outro lado estão documentos, mensagens e transferências financeiras efetivamente identificados pelos investigadores.

A PF já apura o pagamento de R$ 3,5 milhões para empresa ligada ao núcleo familiar de Wagner, a negociação do apartamento de R$ 2,45 milhões e outros benefícios que teriam sido proporcionados por Augusto Lima. A investigação também examina se houve atuação parlamentar de Wagner em favor de interesses relacionados ao Master.

Wagner sustenta que não cometeu irregularidades. Em manifestação após a operação de junho, ressaltou que não era réu, não havia sido denunciado e não havia sido acusado formalmente em processo relacionado aos fatos então investigados. O cuidado jornalístico é particularmente necessário porque Vorcaro fez outras acusações políticas em propostas de colaboração rejeitadas.

Ele também atribuiu supostos pagamentos ilícitos a outros personagens de diferentes campos políticos. Em setembro, por exemplo, tornou-se público um relato no qual associava doações eleitorais às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas a um suposto acordo envolvendo Gilberto Kassab. PF e PGR também recusaram aquelas propostas de colaboração, e os citados negaram irregularidades.

Isso reforça a necessidade de separar delação, investigação e prova, porque uma colaboração premiada não constitui, sozinha, prova suficiente para condenação. E, no caso de Vorcaro, há uma circunstância anterior, onde sequer houve acordo de colaboração homologado com base nesses relatos.

Mas existe agora uma pergunta objetiva para os investigadores. Se Vorcaro afirma que havia pagamentos mensais de R$ 3 milhões relacionados ao Credcesta, será preciso procurar o dinheiro. Extratos bancários, contratos, notas fiscais, empresas intermediárias, mensagens, beneficiários finais e eventuais movimentações em espécie poderão confirmar ou desmontar a história.

No momento em que termina a narrativa do ex-banqueiro e começa o trabalho da polícia, o fio baiano do novelo Master começa a surgir. O caso ganha dimensão adicional porque a investigação do Master deixou de ser apenas uma apuração sobre operações bancárias e passou a alcançar relações empresariais, políticas e institucionais construídas ao redor do banco.

Na Bahia, esse novelo tem personagens definidos: Daniel Vorcaro, Augusto Lima, Credcesta, empresas relacionadas ao negócio, integrantes do entorno de Jaques Wagner e o próprio senador. Assim, alguns fios já estão documentados, mas outros permanecem apenas no relato de Vorcaro.

O mais explosivo deles é justamente a afirmação de que R$ 3 milhões teriam saído todos os meses em direção a um grupo político ligado a Wagner. Se por enquanto é uma mera acusação,

Por enquanto, é uma acusação, mas diante dos R$ 3,5 milhões já identificados pela PF em uma transferência envolvendo empresas ligadas aos personagens investigados, da negociação do apartamento e das mensagens apreendidas, a pergunta deixou de ser apenas política e passou a ser contábil. E s existiu a alegada mesada milionária, deverá haver algum rastro que poderá determinar se a história permanecerá como uma delação recusada ou se abrirá um novo capítulo da investigação do Banco Master.

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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

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