“Todo anjo é terrível”
(Rainer Maria Rilke, Segunda Elegia de Duíno)
Silenciosos, eles vagam pelos campos de sonho. O sonhador, inquieto, os acompanha, os olhos fechados.
Há uma profusão de seres fantásticos e entidades das mais diversas egrégoras. Oxalá, Xangô, Iemanjá e outros orixás; poderosos exus (sem chifres, que exus do candomblé não os têm); sedutoras pombagiras; Zé Pelintra e outros encantados, pequenos deuses do povo brasileiro; divindades do Olimpo e da mitologia celta; musas, em especial as ligadas à poesia; ninfas e sátiros, muitos; demoninhos e seus primos, os querubins rechonchudos; vampiros e lobisomens; iaras, sacis, curupiras e outros integrante das lendas amazônicas; matintas paraenses; sereias; elfos de aspecto glorioso; bruxos e bruxinhos; fantasmas e fantasminhas; gatos e outros bichinhos; e um sem-número de monstros: trolls, mantícoras, grifos, boitatás e por aí vai.
O sonhador os reconhece, escreveu acerca de todos eles. Percebe também a ausência de deuses e seres de mitologias com as quais não tem grandes afinidades eletivas. Assim, da infinidade de deuses do Egito, apenas a deusa-gata, Tabet, protetora das ferinhas que ele tanto ama, está presente. Não há deuses mesopotâmicos nem seres vindos das estrelas, os innunakis mencionados nos textos sumérios. Dos santos católicos, somente São Judas Tadeu pode ser visto – afinal, é o protetor de seu querido Flamengo.
O sonhador sente falta de um enredo que articule todos esses personagens e lhes dê voz, mas não se atreve a escrevê-lo. A trama poderia escapar de seu controle, antigas rivalidades virem à tona, e tudo resultar em uma mortandade brutal. Não, mais prudente deixá-los vagar em silêncio.
Seus olhos cerrados movem-se para o alto e vislumbram um anjo que desliza sobre os campos de sonho. Fixam-se no seu rosto, belo e terrível. Não pelo motivo expressado no poema de Rilke, para quem a presença da perfeição celestial seria demasiado forte para os homens e os destruiria.
É que o anjo de seu sonho não é o de Rilke, e sim o anjo da história, mencionado nos textos do pensador alemão Walter Benjamin. E isso, em uma visão subjetiva, não filosófica, por parte do sonhador. De sua perspectiva, o terrível é a mescla de impassividade e inexorabilidade nas feições perfeitas do anjo da história. É como se ele dissesse: “os homens sofrerão desgraças indizíveis, e não me comoverei com elas, não os ajudarei, nem moverei uma palha para alterar o curso dos acontecimentos. Pouco importa que, atrás de mim, se acumulem escombros, não subsista pedra sobre pedra”.
Nesse momento, suando frio, cheio de medo, o sonhador acorda.


Outra “pedrada” na pasmaceira dos imbecis. Texto de primeira. Confesso que mergulhei fundo e sonhei. Abração e sigo te seguindo.