“Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força. O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas travam a grande batalha dual do ser, provocando com o tempo, harmonias e/ou rupturas transformadoras”.
*(“I Ching: o Livro das Transmutações”, criado há 3 mil anos na China)
O livro I Ching é milenar e, sem dúvida, uma fonte de sabedoria para entendermos a trajetória da humanidade e dos seres – cada vez menos humanos – que a compõem. No caso do Brasil, chegamos a mais um período decisivo de nossa História: eleições gerais e o desafio bipolar de escolher pelo projeto de uma esquerda progressista democrática ou pelo projeto negacionista da extrema direita conservadora.
Momento crítico. Encruzilhada de destinos. Ponto de Mutação.
Parece incrível, mas em meio a tantas denúncias de desvios, escândalos inimagináveis como o Caso do Banco Master e o Grande Chefe do esquema, Daniel Vorcaro, as pesquisas apontem o eleitorado literalmente dividido em empate técnico entre os candidatos à presidência do país, Lula e/ou Flávio Bolsonaro.
Gostaria de propor aqui uma rápida reflexão sobre o Negacionismo Fascista diante do decisivo Ponto de Mutação que o atual momento significa.
O que é o Negacionismo Fascista?
É a recusa deliberada da realidade (como dados científicos, fatos históricos ou resultados eleitorais) combinada com táticas neofascistas de intolerância e busca por domínio e homogeneidade social. Movimento marcado pela violência simbólica e direta, emocional, moral, jurídica e física. Define-se mais pelo que nega do que pelo que propõe, atacando de todas as formas a diversidade e o pluralismo de ideias e de vida. O uso das redes sociais, os ambientes digitais, representam as novas ferramentas de manipulação das massas. Vivemos a dominação do “novo palanque determinado pelo deus-algoritmo” e as Bigtechs.
A História e o Ponto de Mutação.
Pesquisando na História, como citei no início deste artigo, já aparece há 3 mil anos no pensamento filosófico chinês. E segue através dos séculos. Mais recentemente, no final do Século XIX, a teoria do Ponto de Mutação pode ser encontrada na obra de William James (1842-1910), filósofo/psicólogo norte-americano:
“A maioria das pessoas vive – física, intelectual ou moralmente – um círculo muito restrito de seu potencial de existência. Todos nós temos reservatórios de VIDA dos quais podemos absorver aquilo que nem ousamos sonhar. São postos-chaves, períodos de mutação”.
Já o Século XX é repleto de momentos de transição significativos em todas as esferas da vida humana. O “breve” Século de um só guerra com breves períodos de pausa, como escreveu o grande historiador marxista britânico Eric Hobsbawm (1917–2012):
“É preciso transformar a História; muitas vezes, ‘tradições’ que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não inventadas. Os momentos cruciais são os momentos de transição que se fundem em várias camadas. O que vemos, na maioria dos estudos, é a tentativa de estabelecer continuidade com o passado histórico apropriado. São limites de ruptura e transformação, pontos de mutação”.
Entramos pelo Século XXI e lá se vão vinte e seis anos de profundas mutações/transformações.
A internet com seus algoritmos, as redes sociais e as novas tecnologias da informação e comunicação comprimiram o tempo, o espaço e a forma de sentir, ou seja, a nossa percepção de mundo.
Proponho fechar esse pequeno artigo buscando luzes no pensamento do físico teórico e escritor austríaco, Fritjof Capra, desenvolvido em dois livros fundamentais para compreendermos melhor as mudanças: “O Tao da Física/1975” e “O Ponto de Mutação/1982”:
“A visão de mundo sugerida pela física moderna/quântica acaba incompatível com o egoísmo da sociedade humana. Parece que o homem não quer o estado harmonioso de inter-relacionamento que observamos na natureza. Para o equilíbrio dinâmico, será necessária uma estrutura social e econômica radicalmente diferente: uma revolução cultural na verdadeira acepção da palavra. A sobrevivência da nossa civilização depende de como enfrentar a fundamental mutação”.
Os desafios estão aí. Atenção!
Não dá para ignorar, negar ou fingir que não dizem respeito a cada um de nós no plano individual e na decisiva sobrevivência da nossa vida coletiva, democrática, livre e com qualidade.
É hora de encararmos mais este Ponto crucial de nossa Mutação.
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Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Vive na Guarda do Embaú, comunidade pesqueira no Sul de SC.


Gilberto, poeta de múltiplas facetas.
Texto direto, comparativos interessantes… tá aí diante de todos nós, vai encarar ou submergir ao algoritmo?
Meu caro amigo Gilberto, mais um texto magistral que nos presenteia. Aplausos de pé!!
Texto que instiga a reflexão sobre a sensibilidade humana e as relações harmônicas e democráticas.