A vida própria das coisas

Eduardo Martínez
2 minutos de leitura
Edna Domenica - Foto Francisco Filipino

Amigo, não consigo abrir documentos de Word e nem PDF no celular para ler seu texto, conforme solicitou. Estou provisoriamente sem computador. No momento, estou tentando localizar o necessário pra tomar banho. Já estou no apartamento novo. Cheguei aqui lá pelas dez e meia. Ao meio dia os móveis já estavam no lugar. Mas as caixas de livros fedem e os móveis incrustaram uma sujeira que penetrou nos veios da madeira.

Tenho muitas dores. Foi muito tempo preparando, mas parece que as coisas têm vida própria: se movimentam, se escondem…

Uma mesinha cujo tampo é de mármore branco se pôs no meio do caminho com todo atrevimento das brancas baixinhas. A frasqueira marrom onde pus os remédios tomou Doril. Com a dificuldade motora, tudo parece longe.

Estou num apartamento estranho que ainda não tem minha alma.

O dono do caminhão baú é um gaúcho alegre e simpático. Ri com sotaque inteligente!

Os ajudantes são mau humorados. Um deles não entendia o que eu falava e punha o móvel no lugar oposto.

Mas no final deu tudo certo. Apenas sumiu a tampinha do liquidificador.

Um deles não quis a fruta que ofereci. Mas abriu um sorriso pela primeira vez quando lhe ofereci água.

Num breve momento, nos transformamos em amigos de infância.

Mudar parece com sair do sempre e ir para o agora.

……………………….

Este texto faz parte da Trilogia “Própria ou imprópria? ” que abarca:
1- A vida própria das coisas
2- A vida própria do acaso,
3- A vida própria das leis.
A trilogia referida resulta de reflexões sobre vivências e também de releituras de Clarice Lispector.
Edna Domenica é autora de “O Setênio” (Tão livros, 2024) e co-autora de “Rapsódia da Rua da Mooca” (Tão livros, 2026).

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4 Comentários
  • Que alegria, Edna, receber a primeira crônica desta nova trilogia de sua lavra. Deixar o espaço vivenciado há anos e mudar ” de mala e cuia” – mesmo que para outro apartamento na mesma cidade de Florianópolis -, não é tarefa simples. Com o tempo, o sentido de novo pertencimento vingará. O melhor é o desejo/inspiração de registrar em textos essa transição. São os nossos Pontos de Mutação (minha crônica publicada também hoje aqui no Café Literário).
    Belo texto – sempre…-, pequena radiografia de sentimentos, percepções e desafios. Espero os próximos textos da Trilogia.
    Forte abraço e gratíssimo.
    (Gilberto/Giba Motta)

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