A vida própria do acaso

Eduardo Martínez
2 minutos de leitura
Edna Domenica - Foto Francisco Filipino

“O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído”
Titãs

Escrever em jejum aguça a síntese. Hemingway apontou a fome como inspiradora da escrita. Mas hoje no mundo a fome não tem nada do que lembre o charme parisiense aventado pelo autor de “Paris é uma festa”.

Por obra do acaso, meu tempo prolongado sem comida resume-se ao período em que durmo.

O acaso protegeu da fome a minha linhagem de trabalhadores comuns. Avôs italianos que imigraram para o estado cafeicultor de São Paulo, pais que trabalharam em fábrica de cigarro na baixada do Glicério (na capital), minha geração que teve acesso à universidade pública.

Ser classe média consciente é poder ter a dimensão histórica e a noção do acaso. As intempéries sanitárias e as ingerências da saúde pública poderiam ter eliminado a caminhada de nossa linhagem. Mas o acaso nos protegeu.

Falar sobre ascensão social com consciência de classe é buscar sair do sempre e ir para o agora.

Estar presente é dizer não à guerra, à fome, ao autoritarismo, às ditaduras e aos candidatos entreguistas e negacionistas.

Estar presente é sintonizar com os seres criadores e construir benesses para todos.
Por isso escrevi, aqui e agora.

……………………

Este texto faz parte da Trilogia “Própria ou imprópria? ” que abarca:
1- A vida própria das coisas
2- A vida própria do acaso,
3- A vida própria das leis.
A trilogia referida resulta de reflexões sobre vivências e releituras de Clarice Lispector.
Edna Domenica é autora do livro físico “O Setênio” (Tão livros, 2024) e co-autora de “Rapsódia da Rua da Mooca” (Tão livros, 2026).

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