O pacto do colarinho

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Saraiva, tipo de palavras raríssimas, era afeito à conversa gourmet. Frequentava semanalmente o Bar do Bosco, onde pedia uma cerveja e, quando a disposição se fazia presente, aquela branquinha de alambique. E se a fome rondasse a barriga magra, meia porção de fritas era mais do que suficiente.

Boa de prosa era a Judite. E tinha histórias para todos os tamanhos e sabores. Se o sujeito pedisse um causo de assombração, a mulher retirava da cartola algo de arrepiar o cabra mais metido a valente. Se fosse diversão, já saía uma piada de salão ou de tapar os ouvidos de vergonha.

Por coincidência de destinos, vez ou outra, Judite e Saraiva compartilhavam uma terça ou quarta-feira na mesa mais ao fundo. Camilo, o garçom mais tarimbado do boteco, parecia entender por telepatia o pedido daqueles dois. E, assim, uma garrafa de cerveja e dois copos limpos eram enchidos. Colarinho sim, porém sem exageros.

Breves cumprimentos de cabeça, sorrisos discretos. Camilo se virava e ia atender outros clientes. Em seguida, Judite e Saraiva, copos erguidos, brindavam.

— Tu é porreta, Judite.

— Tu também não é dos mais fracos.

Camaradas que eram, trocavam farpas sem pontas durante horas. Raramente convidavam alguém para se sentar. Em vez de prosa ruim, fingiam ébrios. Não seriam eles que trocariam mais um gole por gente chata.

Havia uma fofoca que corria no local, mas que a maioria nem levava a sério. Crendice boba, diziam. Como se fosse coisa inventada por alguém sem-noção. Judite e Saraiva teriam sido amantes? Os dois não diziam que sim nem faziam questão de desmentir. Que fofocassem! De certo modo, até alimentavam o bochicho.

— É verdade, Saraiva?

O homem fitava o curioso, mas nada dizia. Judite, por sua vez, apertava a mão do parceiro de copo e gargalhava. A mulher gostava de provocar. E como provocava!

Entre o que era verídico e boato, todos ficavam na dúvida. Ou melhor, quase todos. Certeza mesmo era algo que apenas os alvos conheciam.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

Compre aqui

https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

Compartilhar
1 comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *