O cenário literário e político de Brasília ganhou um capítulo impactante com o lançamento oficial da biografia “Quando roubaram nossas vidas: uma história real”, escrito por Catiane Farias. O evento, realizado no Café Angelina (409 Sul) na última quinta-feira, 24 de setembro, reuniu leitores e figuras do DF para conhecer os bastidores de um dos episódios mais controversos da história recente do Banco de Brasília (BRB). A obra expõe a dolorosa jornada de uma família que teve a rotina estraçalhada pelo peso do sistema judiciário.
A narrativa foca no calvário vivido por Vasco Cunha Gonçalves, ex-presidente da instituição financeira entre 2015 e 2018, e marido da autora há mais de duas décadas. Em 2019, Vasco foi alvo de uma prisão que chocou o cenário econômico local, baseada em uma delação premiada que mais tarde se provou inconsistente. Ao longo de 127 páginas, Catiane despiu a formalidade dos processos jurídicos para dar voz à angústia, ao preconceito e às marcas indeléveis que a espetacularização policial deixa na vida de cidadãos inocentes.
O drama familiar começou de forma abrupta logo após a mudança da família para o Espírito Santo, onde Vasco assumiria a presidência do Banestes. Apenas 15 dias após a chegada e exatamente no primeiro dia de expediente do executivo, agentes da Polícia Federal bateram à porta do apartamento com um mandado de busca e apreensão. O que parecia uma averiguação de rotina terminou com Vasco sendo levado em um camburão, iniciando um período de mais de 130 dias de cárcere que mudaria o destino de todos para sempre.
Com coragem e sensibilidade, a autora resgata as memórias mais íntimas daquele período, como o momento em que desabou em um “choro convulsivo e solitário” no banheiro para poupar os pais e os filhos de testemunharem seu sofrimento. Longe de ser um manifesto de vingança ou um compilado de acusações jurídicas, o livro se propõe a ser um manifesto sobre resiliência e sororidade. A obra retrata a empatia silenciosa e o apoio mútuo desenvolvidos entre mulheres que compartilham a dor de ter familiares inseridos no complexo sistema prisional.
As consequências institucionais e profissionais também são detalhadas com rigores de realidade na publicação. Mesmo sendo funcionário de carreira do banco, Vasco Cunha Gonçalves foi sumariamente demitido antes de qualquer conclusão judicial e perdeu direitos fundamentais, como plano de saúde e contribuições previdenciárias. Catiane, que é assistente social concursada do Governo do Distrito Federal (GDF), também relata ter sido colocada em uma “geladeira” institucional por oito anos, sendo privada de assumir cargos comissionados unicamente por seu vínculo matrimonial.
Um dos pontos mais intrigantes da biografia é a conexão de personagens do passado com escândalos financeiros contemporâneos, como as recentes investigações envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro. O livro cita nominalmente o delator Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como “Ricardo Gordo”, cujas declarações serviram de base para a prisão de Vasco em 2019. Anos mais tarde, o próprio delator chegou a recuar em suas afirmações, declarando de forma surpreendente que sequer sabia quem era o ex-presidente do BRB e que poderia ter se enganado em seu relato original.
A ironia do destino se consolidou em 2026, quando Ricardo Rodrigues voltou a ser alvo da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que apurou irregularidades na captação de recursos junto ao Rioprevidência. Enquanto os bastidores do poder continuam movimentando as páginas policiais, a obra de Catiane serve como um lembrete do custo humano gerado por erros investigativos e acusações infundadas que alimentam a opinião pública antes do trâmite final da Justiça.
Embora o processo criminal que vitimou o ex-presidente do BRB tenha sido finalmente arquivado por absoluta falta de provas, a batalha da família Farias Gonçalves está longe do fim. A luta agora migrou para a esfera trabalhista, onde os advogados buscam reverter a demissão por justa causa aplicada na época e reaver os direitos previdenciários e funcionais de Vasco. O caso atualmente tramita em fase de recurso no Tribunal Superior do Trabalho (TST), aguardando uma decisão definitiva.
A experiência transformadora motivou Catiane Farias a mudar os rumos de sua própria vida acadêmica e profissional. Além de sua atuação na Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF), ela retornou aos bancos universitários para cursar Direito, com o objetivo claro de direcionar sua carreira para a advocacia criminal e atuar na defesa de direitos humanos. O prefácio do livro estende essa visão, convidando a sociedade a uma reflexão profunda sobre justiça social, responsabilidade coletiva e empatia.
A obra “Quando roubaram nossas vidas: uma história real” já está disponível para o público geral em múltiplos formatos e plataformas de distribuição. O livro físico pode ser adquirido por R$ 51,90 em e-commerces como Amazon, Estante Virtual e UmLivro, enquanto a versão digital (eBook) é comercializada a R$ 25,95 na Amazon Kindle, Google Play e Apple Books, consolidando-se como uma leitura essencial para compreender as engrenagens invisíveis do poder em Brasília.

