Otite canina pode evoluir de uma coceira de ouvido para graves riscos neurológicos

Eduardo Martínez
6 minutos de leitura
Leonardo Bernar - Foto Francisco Filipino

A otite canina é uma inflamação do canal auditivo dos cachorros que provoca muita dor, desconforto e irritação nos animais. Definida como a inflamação do conduto auditivo, essa condição pode acometer diferentes regiões anatômicas da orelha do pet. De acordo com a literatura médica veterinária recente, a inflamação pode ter origem infecciosa, alérgica, parasitária ou estar associada a alterações estruturais e predisposições genéticas do próprio animal.

O formato da orelha e a genética desempenham um papel crucial no desenvolvimento dessa complicação médica. Algumas raças apresentam maior predisposição ao desenvolvimento de otite em cães, especialmente aquelas com orelha pendular (caída) e canais auditivos estreitos, como Cocker Spaniel, Basset Hound, Dachshund e Labrador Retriever. Essa anatomia específica dificulta a ventilação e a secagem adequadas do canal auditivo, criando um ambiente abafado e propício para a proliferação acelerada de microrganismos.

Além das características físicas do animal, os fatores ambientais provocados pela rotina de cuidados do tutor também servem de gatilho para a doença. Atividades comuns do dia a dia, como banhos frequentes, natação e uma higienização inadequada, favorecem o acúmulo de umidade excessiva no conduto auditivo, aumentando drasticamente o risco de infecção. Outro ponto que exige atenção dos donos é o fato de que o problema é multifatorial, o que significa que nem toda otite possui necessariamente uma causa bacteriana.

Embora a infecção bacteriana seja muito comum na rotina das clínicas, processos alérgicos, parasitários, presença de ácaros e até doenças imunomediadas podem desencadear a inflamação original. Diante disso, os especialistas alertam fortemente contra a automedicação dos pets: o uso recorrente e indiscriminado de antibióticos tópicos ou sistêmicos sem critério médico pode dificultar o tratamento correto. Essa prática perigosa acaba favorecendo a resistência microbiana, tornando os patógenos ainda mais fortes e difíceis de combater.

Para identificar o problema precocemente, os tutores devem ficar atentos aos principais sinais clínicos e sintomas manifestados pelo cão. Os indícios mais frequentes na rotina doméstica incluem uma coceira forte na região das orelhas, vermelhidão (eritema), excesso de cera, ulceração e secreção acompanhada de um cheiro ruim ou forte vindo do ouvido. O comportamento do pet também muda: o cão balança a cabeça sem parar, demonstra dor evidente quando alguém toca na orelha e pode apresentar inclinação lateral da cabeça (head tilt).

A otite externa é a classificação mais comum de otite na rotina clínica, correspondendo à grande maioria dos atendimentos veterinários. Ela caracteriza-se pela inflamação do conduto auditivo externo, estendendo-se do pavilhão auricular até a membrana timpânica, envolvendo o epitélio e as glândulas ceruminosas. O diagnóstico envolve exame otoscópico e citologia, sendo que o tratamento geralmente é feito de forma tópica, com a aplicação direta de gotas ou pomadas indicadas pelo profissional.

Quando a inflamação não é tratada a tempo ou é conduzida de forma errada, ela progride para estruturas mais profundas, transformando-se em otite média. Esse tipo ocorre quando o processo atinge a cavidade da bula timpânica, sendo muito comum como complicação da otite externa ou em raças braquicefálicas (como o Bulldog Francês), cuja conformação craniana impede a drenagem correta da região. Nesses casos, o tratamento exige exames de imagem e a associação de terapias sistêmicas com procedimentos cirúrgicos complexos.

O estágio mais avançado e perigoso da doença é a otite interna, que envolve estruturas profundas do ouvido, incluindo a cóclea, o vestíbulo e o nervo vestibulococlear. Essa condição geralmente ocorre como extensão de uma otite média negligenciada e é frequentemente associada a graves sinais neurológicos, como movimentos involuntários dos olhos (nistagmo) e perda de coordenação motora (ataxia). Para o manejo da otite interna, pode ser necessária a realização de cirurgias radicais, como a ablação total do conduto auditivo externo.

A demora no diagnóstico e a falta de manejo terapêutico adequado podem resultar em complicações severas para a saúde geral do cão. Entre os problemas secundários mais graves estão o otohematoma (acúmulo de sangue na orelha devido ao ato de coçar), a estenose (estreitamento permanente) do conduto auditivo e até a meningite otogênica, que traz o risco de sequelas neurológicas irreversíveis ou morte. O quadro é considerado crônico quando o pet apresenta episódios recorrentes a cada dois ou três meses.

A prevenção e a conscientização continuam sendo o melhor remédio para garantir o bem-estar e a longevidade dos animais de estimação. Para proteger os cães, os tutores devem secar muito bem as orelhas do pet após o banho, limpar apenas a parte externa com produtos validados pelo médico e evitar tratamentos empíricos sem descobrir a causa primária. Ao notar qualquer sinal de desconforto, a conduta correta é buscar imediatamente um médico veterinário para que ele examine o conduto e prescreva a medicação adequada.

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