Caneta de Bia deve limpar o Supremo; a de Leila é vista como bola fora

Redação
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Aurélio Zanotti - Foto de Arquivo

Há eleições em que se escolhe um rosto. Há outras em que se escolhe uma ferramenta. A disputa pela segunda cadeira do Distrito Federal no Senado é, no fundo, uma escolha entre a bola e a caneta, e entre dois times que não jogam do mesmo lado da rede.

A bola é Leila Barros. Ninguém tira dela o bronze de Atlanta e de Sydney. Mas o eleitor precisa saber em que time ela joga em 2026. Leila disputa a reeleição pela coligação DF do Povo, a mesma de Erika Kokay (PT). No lançamento da pré-candidatura, em abril, quem subiu ao palco para defender sua reeleição foi Leandro Grass, candidato do PT ao governo.

Em 16 de setembro, ela discursou no ato de Lula em Ceilândia, em apoio aos candidatos do partido à Presidência e ao governo do DF. A senadora que em 2021 deixou o PSB por causa da aproximação do partido com Lula hoje faz campanha ao lado dele.

A caneta é Bia Kicis. Formada em Direito, foi procuradora do Distrito Federal de 1992 a 2015. Eleita deputada federal em 2018, voltou em 2022 com 214.733 votos, a maior votação para a Câmara no DF naquele ano. Em 2021, presidiu a Comissão de Constituição e Justiça.

Por que isso importa agora? Porque o Senado é a única casa que pode julgar ministros do Supremo. E o caso Master encheu as gavetas. Até abril, já eram 102 pedidos de impeachment contra ministros da Corte, 12 deles protocolados depois do escândalo, contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Nenhum foi aprovado até hoje.

Agora, olhe quem indicou quem. Dias Toffoli, relator do caso Master até ser alvo de pedidos de impeachment, chegou ao Supremo em 2009 pelas mãos de Lula. Cristiano Zanin foi advogado pessoal de Lula antes de ser indicado por ele, em 2023. Flávio Dino era ministro da Justiça de Lula quando foi nomeado, em 2024. Hoje, Dino relata o inquérito que investiga Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e Marcola.

Quando senadores pediram o impeachment de Toffoli por sua atuação no caso Master, em janeiro, as assinaturas foram de Magno Malta, Eduardo Girão e Damares Alves. Nenhum senador do PT assinou. Não é difícil entender por quê: nenhum partido costuma investigar a própria escalação.

É aí que a escolha vira aritmética. Para condenar um ministro, são necessários 54 dos 81 senadores. Cada cadeira que vai para a base do governo é um voto a menos nessa conta. Uma senadora eleita no palanque de Lula dificilmente será o voto que abre a gaveta dos ministros que Lula escolheu.

Para ser justo, a régua não pode ter lado. Kassio Nunes Marques, alvo do pedido mais recente, foi indicado por Jair Bolsonaro. Por isso mesmo, o Senado precisa de quem trate o tema como matéria jurídica, não como lealdade partidária. Bia fez da pauta do impeachment o eixo de sua carreira política. O eleitor pode discordar dela, mas sabe o que ela fará com o voto.

A Quaest desta semana mostra Leila com 19% e Bia com 15%, em empate técnico com Erika Kokay. Bia foi quem mais cresceu em duas semanas, de 11% para 15%, e os indecisos ainda são 11%. A segunda cadeira será decidida por quem ainda não fechou o segundo voto.

A Constituição fez do Senado o freio do Supremo. Só os senadores podem julgar um ministro da Corte. Nos últimos quatro anos, esse freio não foi acionado. Pedidos se acumularam, o caso Master revelou relações entre ministros e um banqueiro preso, e nenhum processo saiu da gaveta. Quando o Legislativo abre mão de fiscalizar, os outros poderes deixam de ter limite, e o equilíbrio que a Constituição desenhou vira letra morta. O Brasil não precisa de um poder acima dos outros. Precisa que cada poder volte a cumprir o seu papel, e o do Senado é justamente fazer o contrapeso.

Por isso, não, este não é o momento do vôlei. Não é hora do esporte, das medalhas nem da simpatia. É hora da justiça. O Senado que toma posse em 2027 terá de decidir se continua assistindo ou se volta a ser o divisor entre os poderes. Para isso, precisa de quem conheça a Constituição por dentro, e não de quem vá votar com o time que indicou os ministros. A bola já teve seu tempo em quadra. Em 4 de outubro, é hora da caneta.

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Aurélio Zanotti, administrador de políticas públicas da área social

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