Voto e língua sugerem que em política quem fala muito cumprimenta cavalo

Redação
Redação
8 minutos de leitura
João Zisman, texto e imagem

Quem acompanha eleição há algum tempo aprende uma coisa meio incômoda: campanha nenhuma está protegida de si mesma. Pode estar bem montada, com pesquisa favorável, discurso ajustado, equipe afinada, televisão funcionando e candidato embalado. Ainda assim, basta uma frase torta, um gesto mal calculado ou uma graça fora de hora para mudar o ambiente.

É por isso que eu sempre desconfiei dessa ideia de que eleição se ganha apenas no grande movimento. Claro que existem a economia, as alianças, a rejeição, o desempenho do governo, a qualidade do adversário, tudo isso pesa muito mais. Mas, quando a disputa aperta, o pequeno cresce. E cresce depressa. O que parecia apenas um detalhe passa a ter tamanho de acontecimento.
Pernambuco acaba de oferecer um bom exemplo.

Raquel Lyra disputa com João Campos uma eleição que chegou à reta final muito equilibrada. Não pretendo entrar nas minúcias da política pernambucana atual, até porque saí do Recife há quase 35 anos e seria uma pretensão desnecessária me apresentar como intérprete de uma cena que hoje acompanho à distância. Mas não é preciso conhecer cada corredor da política pernambucana para perceber o risco que existe quando, numa disputa dessa natureza, aparece uma frase com capacidade de andar sozinha.

Foi o que aconteceu com Raquel. Numa conversa gravada anteriormente sobre uma mulher com vários filhos, ao falar sobre laqueadura, ela usou a expressão “faz sem ela saber”. Depois vieram as explicações, os pedidos de desculpas, as alegações de descontextualização, todo o ritual que normalmente vem depois de uma frase que escapou. O problema é que existem frases que sobrevivem à explicação porque carregam uma imagem muito mais poderosa do que qualquer esclarecimento posterior. A ideia de uma mulher ser submetida a um procedimento definitivo sem saber dispensa mediação. A frase chega pronta ao ouvido do eleitor.

Não estou dizendo que Raquel Lyra perderá a eleição por causa disso, nem sequer que perderá. Seria transformar análise em adivinhação, esporte muito praticado durante campanhas e rapidamente esquecido depois da apuração. O que me interessa é outra coisa: às vezes, um candidato oferece involuntariamente ao adversário a imagem capaz de organizar tudo aquilo que a campanha contrária gostaria de dizer contra ele.

Já vi isso acontecer. No Recife de 2000, Roberto Magalhães disputava a reeleição para prefeito contra João Paulo. Durante uma carreata, provocado por adversários, respondeu com o gesto conhecido como banana. A fotografia foi registrada, explorada politicamente e ficou associada à campanha. Roberto perdeu aquela eleição por uma diferença pequena.

É evidente que não perdeu por causa de uma banana. Nenhuma eleição séria pode ser explicada dessa maneira. Havia desgaste, desejo de mudança, campanha adversária, movimentação política e uma série de outros fatores. Mas o gesto ficou. E a política, depois que tudo termina, tem uma enorme capacidade de escolher uma imagem para resumir histórias muito mais complicadas.

Outro episódio que sempre me volta à memória aconteceu no Distrito Federal, em 1998. Cristovam Buarque disputava a reeleição para governador contra Joaquim Roriz. Cristovam era o professor universitário, o intelectual, o homem da palavra sofisticada. Roriz falava de outro jeito, tropeçava na concordância, pronunciava algumas palavras à sua maneira e carregava uma fala que muita gente mais escolarizada considerava pouco elegante, mas que uma parcela enorme da população entendia perfeitamente e reconhecia como próxima.

Em um dos debates, Cristovam resolveu ironizar essa diferença. Pode até ter parecido espirituoso naquele instante. Só que existe uma fronteira muito fina entre rir do adversário e fazer o eleitor imaginar que você está rindo dele também. O professor pretendia diminuir Roriz, mas a ironia erudita podia soar como desdém por quem falava daquele mesmo jeito. Cristovam venceu o primeiro turno e perdeu o segundo.

Mais uma vez, seria simplista afirmar que alguns segundos de debate decidiram a eleição. Roriz tinha enorme força popular e aquela disputa tinha razões muito maiores. Mas a cena ficou, justamente porque eleições não são arquivadas na memória como trabalhos acadêmicos. O eleitor não monta uma planilha para ponderar programa de governo, desempenho administrativo, alianças, economia, segurança, saúde e comportamento em debates. Ele guarda também impressões, incômodos e cenas.

Uma banana. Uma ironia. Uma frase sobre laqueadura. Talvez por isso o detalhe seja tão precioso numa eleição. Os grandes problemas costumam ser percebidos, pesquisados e trabalhados com antecedência. O detalhe não. Ele aparece de repente, num improviso, numa resposta atravessada, numa gracinha que parecia boa, numa palavra desnecessária. E só revela seu tamanho depois que já saiu da boca.

Este texto está sendo publicado propositalmente a uma semana da votação. Não porque pretenda oferecer conselho a quem já atravessou meses de campanha, mas porque é justamente agora que candidatos e marqueteiros deveriam desconfiar do excesso. A esta altura, quase tudo já foi dito, as alianças estão feitas, os programas estão no ar, as pesquisas se sucedem e o eleitor começa a fechar suas últimas impressões. Talvez a tarefa mais importante destes sete dias não seja inventar uma novidade, mas evitar produzir um problema.

Candidato cansado fala demais. Candidato empolgado fala demais. Candidato que acredita ter encontrado a frase definitiva costuma avançar uma frase além dela. Marqueteiro ansioso pede mais uma entrevista, mais um vídeo, mais uma provocação, quando talvez o melhor movimento fosse simplesmente saber a hora de parar.

Minha avó usava uma expressão que vale mais do que muito manual de campanha: quem fala muito dá bom-dia a cavalo. Na última semana, isso deveria estar escrito em letras grandes na parede de todo comitê eleitoral. Porque uma campanha pode atravessar meses de dificuldades, sobreviver a adversários fortes, recuperar terreno, acertar estratégia e chegar competitiva aos últimos dias. A partir daí, muitas vezes, a primeira obrigação deixa de ser conquistar alguma coisa e passa a ser não perder aquilo que já conquistou.

Não sei o que acontecerá em Pernambuco, e não quero fingir que sei. Raquel Lyra pode vencer, João Campos pode vencer, e qualquer um desses resultados terá explicações muito maiores do que uma única frase. Mas, se Raquel perder uma eleição que chegou tão apertada à reta final, será difícil impedir que aquele “faz sem ela saber” ocupe um lugar especial na memória da campanha.
Talvez injustamente. Talvez com exagero. Como quase sempre acontece quando tentamos resumir eleições depois que elas terminam.

Só que política também é feita disso. Meses de campanha desaparecem. O detalhe fica. E, faltando uma semana para a urna, talvez seja uma boa hora para todos os candidatos se lembrarem de que falar é necessário, mas saber a hora de parar também é uma virtude eleitoral. Porque quem fala muito dá bom-dia a cavalo. E, numa eleição apertada, às vezes basta um bom-dia errado para esterilizar uma reeleição.

Compartilhar
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *