Antes que a primeira grande chuva desabe sobre Brasília, a natureza costuma mandar seus próprios mensageiros. Não carregam guarda-chuvas, não consultam satélites nem acompanham mapas meteorológicos. Surgem das profundezas da terra, escalam árvores e transformam o silêncio da seca numa verdadeira sinfonia.
São as cigarras. Seu canto estridente começa a ocupar parques, jardins, áreas residenciais e as árvores espalhadas pelo Plano Piloto justamente quando setembro caminha para o fim e o brasiliense, depois de meses respirando poeira e enfrentando índices baixíssimos de umidade, passa a olhar para o céu em busca das primeiras nuvens carregadas.
No imaginário popular, quando a cigarra canta, a chuva está chegando, mas a ciência recomenda apenas uma pequena correção nessa frase. A cigarra não prevê a chuva como um minúsculo meteorologista escondido entre as folhas. Seu aparecimento está relacionado às condições ambientais que também acompanham a transição entre a seca e o período chuvoso: temperatura, umidade do solo e precipitações ajudam a determinar o momento em que os insetos deixam a vida subterrânea e aparecem na superfície.
No Cerrado, essa associação é particularmente marcante. Estudos da Embrapa sobre diferentes insetos subterrâneos mostram como as primeiras chuvas podem funcionar como gatilho para a emergência de adultos depois de longos períodos protegidos no solo.
O cantor é o macho, onde reside uma curiosidade que talvez passe despercebida por quem escuta aquela algazarra nas árvores. Ele não está celebrando a chuva, mas procurando namorada.
O som que atravessa quarteirões é fundamentalmente um chamado reprodutivo. Os machos possuem estruturas especializadas no abdômen, chamadas tímbalos, capazes de produzir aquele ruído intenso e característico. A vibração é amplificada pelo próprio corpo do inseto.
É, portanto, uma serenata. Barulhenta, insistente e, dependendo da quantidade de pretendentes reunidos numa mesma árvore, ensurdecedora.
A fêmea não produz o mesmo canto potente. Ela escuta os pretendentes e responde aos estímulos de corte de maneira muito mais discreta. Depois do encontro e do acasalamento, começa outra etapa da história.
A fêmea procura ramos de árvores e outros tecidos vegetais apropriados para depositar os ovos. Faz pequenas incisões e ali deixa a próxima geração. Algum tempo depois, os ovos eclodem. As pequenas ninfas caem no chão e fazem exatamente o contrário do que seria esperado de um animal que acabou de nascer: em vez de procurar o céu, começam a cavar e desaparecem, vivendo uma infância debaixo da terra
É sob nossos pés que acontece a maior parte da vida de uma cigarra. As ninfas instalam-se no solo e alimentam-se de líquidos obtidos das raízes das plantas. Dependendo da espécie, essa existência subterrânea pode durar anos. A literatura científica registra justamente esse longo ciclo juvenil em contraste com a relativamente curta fase adulta das cigarras.
Durante todo esse período não há canto, nem asas ou aquela cigarra que conhecemos agarrada ao tronco de uma árvore. Existe apenas uma ninfa vivendo silenciosamente no escuro, alimentando-se e passando por diferentes estágios de desenvolvimento, até chegar o momento da subida.
Quando as condições ambientais são adequadas, a ninfa abandona o subterrâneo, escala um tronco, uma parede, uma cerca ou qualquer superfície vertical que encontre pela frente. Então acontece uma das transformações mais impressionantes do Cerrado, com a pele externa se rompendo e de dentro dela surge o adulto.
É por isso que, nesta época do ano, aparecem tantas “cascas de cigarra” agarradas às árvores. Aquilo não é uma cigarra morta, como muita gente imagina. É o exoesqueleto abandonado pela ninfa durante sua transformação final.
A cigarra adulta abre as asas, espera que elas adquiram resistência e parte para a etapa mais breve e decisiva de sua existência de reproduzir-se, com anos de espera para algumas semanas ao Sol. Nesse ciclo existe uma ironia.
Elas podem passar anos debaixo da terra preparando-se para uma vida adulta que, em comparação, é extremamente curta. A duração exata varia muito conforme a espécie e as condições ambientais, mas a regra geral é a mesma, onde a fase subterrânea domina o ciclo, enquanto a existência alada representa apenas sua etapa final.
Nesse pequeno intervalo machos e fêmeas precisam encontrar-se, com o macho cantando, a fêmea escolhendo, o casal acasalando, a fêmea depositando os ovos e o ciclo recomeçando.
Estudo publicado pela Embrapa em 2026 sobre a Quesada gigas, conhecida como cigarra-gigante, descreve exatamente esse contraste entre o longo período subterrâneo das ninfas e a curta fase adulta.
Assim, aquela cantoria que para algumas pessoas pode parecer apenas um ruído incômodo é, biologicamente, uma corrida contra o relógio. Cada macho está anunciando sua presença e cada fêmea carrega a possibilidade de uma nova geração, onde cada ovo deixado nos galhos representa uma futura ninfa que voltará ao chão para permanecer escondida até que chegue sua própria primavera.
Em Brasília, porém, a cigarra ganhou significado adicional. Depois de maio, junho, julho e agosto praticamente sem chuva, o brasiliense aprende a reconhecer pequenos sinais de que o castigo da seca está chegando ao fim. O cheiro da terra muda, as nuvens reaparecem, o vento deixa de carregar apenas poeira, os ipês encerram seu espetáculo e as cigarras ligam seus instrumentos.
De repente, árvores que passaram meses silenciosas transformam-se em caixas de ressonância. É o Cerrado mudando de estação diante dos nossos olhos — e, sobretudo, dos nossos ouvidos.
Não existe contrato assinado entre cigarras e São Pedro. Nem garantia científica de que uma tempestade cairá amanhã simplesmente porque dezenas delas resolveram cantar hoje. Mas a sabedoria popular nasceu da observação repetida da natureza.
Ano após ano, geração após geração, os moradores do Planalto Central perceberam que a sinfonia das cigarras costuma coincidir com aquele período em que a atmosfera começa a abandonar a longa estiagem e Brasília se aproxima novamente das águas.
Por isso, quando setembro chega aos últimos dias e o som começa a ecoar entre árvores, prédios e tesourinhas, muita gente já sabe o que fazer. Olhar para cima. Talvez as cigarras estejam apenas procurando amor. Para o brasiliense, contudo, aquele canto parece dizer outra coisa, porque é hora de preparar o guarda-chuva que a seca está arrumando as malas.
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Carolina Paiva é Editora de Brasília

