Cássio levou a xícara aos lábios, quase duas tênues linhas entre o nariz adunco e o queixo praticamente inexistente. Da janela do pequeno apartamento, observou um casal de joão-de-barro que carregava gravetos para dentro do ninho. O homem teve a certeza de que logo, logo outros seres eclodiriam na imensidão do jardim.
Um gole, uma pausa reflexiva. Outro gole e Cássio foi tomado por uma cena a que assistira em um desses canais de vida selvagem: um búfalo e seis, sete, quinze bocas famintas. Leões.
O gosto de café lhe pareceu sanguinolento. O ímpeto de cuspi-lo foi momentaneamente contido por um resquício de razão. Leões devoravam o pobre animal ainda vivo. Abriram-lhe o ventre, as tripas esparramadas sobre o chão da savana. Olhos incrédulos, perdidos diante do doloroso destino.
Impasse perante a própria vida. Cássio se lembrou de Aurora. Inevitável. Sentiu-se apunhalado pela mulher que havia lhe prometido amor eterno. Fidelidade.
— Por quê, Aurora?
— Essas coisas acontecem, meu amor.
— Amor? Você ainda tem coragem de me chamar de amor?
— Costume.
A conversa foi breve, antes não tivesse acontecido. Remoeu, remoeu, remoeu. Todos os remorsos. Lembrou-se do gosto do primeiro beijo. Gosto de hortelã.
— É o chiclete, meu amor.
— Quero esse gosto pra sempre, Aurora!
— Pra sempre é muito tempo, meu amor.
Pra sempre é muito tempo. Sim, pra sempre é uma eternidade. Gosto de sangue. Cuspiu.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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