TV Globo esqueceu de combinar com os russos o formato do Golpe 2.0

Redação
Redação
6 minutos de leitura
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Entre outras inquestionáveis garantias, a democracia plena e absoluta assegura ao povo e a quem não é do povo liberdade de expressão, de imprensa, de crença e de reunião. Também permite que qualquer pessoa ou empresa estabeleçam o tipo e o quantitativo de convidados para eventuais convescotes, bem como a forma como eles devem se comportar na casa ou no estabelecimento do anfitrião. Como, felizmente, a moeda tem dois lados, o sistema de vez em quando “obriga” a que eu, determinadas instituições, grupos políticos e representantes do empresariado de bastidor experimentem do próprio veneno.

Foi o que ocorreu na traiçoeira e peçonhenta noite dessa quinta-feira (02), data em que o impoluto, nervoso e opaco jornalismo da emissora do Plim Plim literalmente começou a escrever os primeiros capítulos de um novo folhetim da empresa: O derradeiro suspiro. Dispostos a afogar o ganso de cauda vermelha na bacia inquisitória da família Marinho, os donos da razão, inclusive alguns imortais que por pouco não morrem de susto e de vergonha, tiveram de engolir um sapo rouco, uma aranha corajosa e um deus supremo e tão grande como a República de Bananas.

Enorme na qualidade de sua programação, craque nos gramados da fantasia, grandiosa nos efeitos especiais de seus artistas travestidos de jornalistas, imparcial e raivosa quando cobrada pela clara e notória parcialidade política, desde 1989, a primeira eleição após a redemocratização, a emissora tem se notabilizado na arte de tentar implodir capazes e de catapultar incapazes. O enviesado colóquio do pleito presidencial em que a TV Globo elegeu Fernando Collor de Mello dispensa novos comentários.

O debate que não houve nessa quinta-feira apequenou de vez a toda poderosa TV Globo, hoje bem mais próxima da referência à viúva Porcina, uma das personagens mais libertárias já produzidas pela companhia: Aquela que foi sem nunca ter sido. Como mais tem os improváveis deuses a dar do que os conhecidos diabos a carregar, o jogo que já começaria dez a zero para os sumariantes acabou um a um, graças à intervenção intempestiva, mas oportuna de juízes com poder e com antenas fixas fora do octógono montado pela emissora.

Como se estivesse produzindo um espetáculo do tipo ascensão e queda de um único vilão, o jornalismo global vendeu todos os ingressos dois dias antes do apito inicial. Meticulosos em tudo que fazem, conseguiram esquecer de combinar com os russos o formato do Golpe 2.0, aquele com vários atiradores e só uma vítima. Obviamente que a ideia do debate não passava de um detalhe. O objetivo final era dar voz ao emérito bajulador do dono do mundo, de forma que ele mostrasse aos “patriotas” e aos eleitores indecisos que Salomão Ayala, Odete Roitman, Carminha e Zeca Diabo vestem vermelho, comem picanha sozinhos e querem que os trabalhadores brasileiros morram de inanição.

A história de 1989 só não se repetiu por causa da aranha e do deus de capa preta. A ordem foi clara: se o Zé não pode se defender, o José tem o direito de atacar, desde que se permita a entrada de um João com lastro nada a favor do Zé, mas com mantras contra o José. Em nome de uma tal regra inventada nos estúdios de Quem ama cuida, A TV Globo mais uma vez se isentou de ser isenta e, claramente decidida a não levar à lona o lutador festivamente convidado, preferiu não só cancelar a luta, mas partir para o achincalhe do juiz e da juíza de fora. Na verdade, o deus e a aranha.

Dissertações de imortais e desolados e desmemoriados editoriais de frustrados comentaristas só serviram para passar recibo da nova e vergonhosa politicagem global. Não concordo com as decisões dos tribunais. Entretanto, diante do acerto prévio com o lutador de bravatas, mas com honras globais, nada mais justo que uma aranha possa soltar sua teia para melar mais uma estratégia da aldeia global em favor da elite. Resumindo a ópera, da mesma forma que a TV Globo achou legal dirigir perguntas a um púlpito morto, a poderosa aranha entendeu como normal evitar o início da ressurreição de um morto-vivo.

Como o show tem de continuar, o ideal seria a família Marinho tentar convencer o jornalismo da casa a marcar um encontro sério e honesto entre o que quer matar e o que não morrer para um eventual segundo turno. Com as mesmas cartas na mesa, nada a reclamar. Começando no zero zero, tudo pode acontecer, inclusive o sapo engolir o lobo mau antes que os encouraçados dos Estados Unidos e da Austrália ancorem no Lago Paranoá para resgatar a vovozinha.

………

Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

Compartilhar
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *