Foi nos pagos do Sul, onde os destemidos abundam e as destemidas axoxotam.
Um desses heróis dos pampas estava em sua jornada. Intelectualizadésimo, já havia lido O herói de mil faces, do escritor estadunidense Robert Campbell, estudioso de mitologias e religiões comparadas. Estava familiarizado com A jornada do herói, apresentada na obra. Mais ainda, vira esse método de construção de mitos e narrativas moldar obras-primas da telona como Star Wars. Acima de tudo, sabia que era um herói e que se encontrava em uma jornada. Então, foi em frente.
O Herói lembrou os 12 passos da jornada. Não fora difícil o primeiro deles, deixar o mundo comum – no caso, a cidadezinha fronteiriça de bosta em que morava desde piá. Lembrou do encontro com o mentor, um bagual totalmente bêbado que lhe revelou ter um mapa do local onde haviam sido enterradas toneladas de prata das minas de Potosí, na atual Bolívia. Recordou sua adesão imediata à aventura e, passos adiante, a etapa 6, de repentina aquisição de novos poderes a saber, a capacidade de identificar minérios escondidos nos veios das rochas ou enterrados no chão. Seria muito útil para encontrar a prata.
(Sim, o Herói tinha consciência de que mencionara apenas três de seis passos, mas, na vida real – e mesmo nos roteiros cinematográficos –, estes por vezes se sobrepunham.)
Ele estava no interior de uma gruta escura como breu, que relacionou à etapa 7, de encontro da caverna secreta. Foi nesse momento que pisou numa pedra instável e desabou, fraturando a perna. Doía pra dedéu, pediu auxílio ao mentor, mas este dormia faceiro, borracho até o talo, e nem ouviu.
“Barbaridade, esse passo 8, da provação, vai ser foda”. Deu um risinho. “Sorte minha é que li Campbell, sei que vou sobreviver, passar pelas etapas finais: o nono passo, da recompensa, até o último, o retorno àquela cidadezinha de merda na fronteira”. Novo riso, agora bem mais forte. “E então vou criar mais um passo na jornada do herói, o décimo-terceiro. Com a prata de Potosí, vou comprar a porra toda e tacar fogo naquela metrópole de caca”.
O som da gargalhada ecoou no interior da caverna e irritou uma cobra peçonhenta semiadormecida (ou então vai que ela havia terminado seu soninho e foi cobrear, sei lá). O fato foi que serpenteou em direção ao Herói e, totalmente ignorante, sem jamais ter lido Campbell, cagando e deslizando para a necessidade de os heróis receberem recompensas, cravou as presas na perna do gauchão imobilizado. Em seguida, só de sacanagem, fez o mesmo com o bagual borracho. Ambos morreram horas depois, o Herói em meio a dores terríveis, o bêbado ainda babando e com um sorriso etílico nos lábios.
Moral da história: certas jornadas de herói acabam mal, ainda que envolvam gente dos pampas, onde os destemidos abundam. Basta ver o desempenho, até o início de outubro, do Internacional e do Grêmio no Brasileirão de 2026.


Achei legal mas com algumas palavras apelativas.