Brasiliense se decepciona com política, mas mantém olhos nas eleições

Redação
Redação
6 minutos de leitura
Marta Nobre - Foto de Arquivo

O eleitor do Distrito Federal vive uma aparente contradição às vésperas das eleições. Embora demonstre desencanto com a política, continue incomodado com a polarização e veja com pessimismo o ambiente político, ele não desligou o radar: acompanha as campanhas e mantém elevado o consumo de notícias sobre o assunto.

É o que revela levantamento do Observa DF, grupo de pesquisa vinculado à Universidade de Brasília (UnB). Segundo o estudo, apenas 36% dos eleitores da capital se consideram muito interessados ou interessados em política. Outros 38% dizem ter pouco interesse, enquanto 26% afirmam não ter interesse algum.

O índice coloca o Distrito Federal abaixo da média brasileira. Dados do Latin American Public Opinion Project (Lapop) apontam que 53% dos brasileiros demonstram muito ou algum interesse por política — diferença de 17 pontos percentuais em relação ao resultado registrado no DF.

O desencanto, entretanto, não significa completo afastamento das urnas. Quando a pergunta se concentra especificamente nas campanhas eleitorais, o interesse cresce: 41% dos entrevistados dizem acompanhar o período eleitoral com muito ou algum interesse.

Para Lucio Rennó, cientista político, professor da UnB e um dos coordenadores do levantamento, parte dessa contradição pode ser explicada pelo desgaste provocado pela polarização.

Segundo ele, o acirramento dos conflitos transformou a discussão política em um ambiente cada vez mais dividido e agressivo. Em vez de estimular a participação, esse cenário acaba afastando parte da população do debate público.

Essa percepção aparece também entre os jovens entrevistados. Lucas Faria, de 22 anos, estudante de educação física, afirma que passou a se interessar menos por política ao não encontrar candidatos que representassem seus valores.

Para ele, a divisão do eleitorado em dois grandes campos limita as alternativas e fortalece a lógica do chamado “voto útil”, pela qual o eleitor é pressionado a escolher um dos nomes considerados competitivos, mesmo que não seja aquele com quem mais se identifica.

Se a política decepciona, as notícias sobre ela continuam atraindo atenção. O levantamento mostra que 41% dos entrevistados acompanham diariamente informações políticas — exatamente o mesmo percentual daqueles que demonstram muito ou algum interesse pelas campanhas eleitorais.

O engajamento presencial, porém, perdeu espaço. Segundo a pesquisa, 33% dos eleitores disseram ter acompanhado pouco de perto as atividades relacionadas ao pleito.

Rennó observa que a própria maneira de fazer campanha mudou. Comícios, reuniões políticas, distribuição ou utilização de material eleitoral e outras formas tradicionais de militância presencial passaram a disputar espaço com uma participação mais individualizada.

O eleitor prefere, cada vez mais, procurar informações pela televisão, pelos veículos tradicionais de comunicação e pela internet. Na avaliação do pesquisador, a pesquisa consegue captar justamente essa transformação no comportamento eleitoral.

Os noticiários aparecem como principal fonte de informação política para 36% dos entrevistados. As redes sociais vêm logo depois, mencionadas por 28%. Entre aqueles que recorrem às plataformas digitais, 40% apontam o Instagram como fonte de informação.

A estudante de direito Sofia Melo, de 22 anos, também demonstra frustração. Ela afirma ter reduzido o acompanhamento de debates e materiais eleitorais por considerar que boa parte dos candidatos deixou de discutir políticas públicas para concentrar esforços na disputa política propriamente dita.

Na avaliação da estudante, a polarização empobrece a troca de ideias e prejudica a formação da consciência política.

O problema ganha dimensão especial entre os jovens. O relatório aponta esse grupo como um dos mais suscetíveis às chamadas bolhas informacionais, fenômeno provocado, entre outros fatores, pela lógica dos algoritmos das plataformas digitais.

Ao oferecer conteúdos semelhantes àqueles que o usuário já consome ou com os quais costuma concordar, as redes podem reduzir o contato com posições divergentes e reforçar convicções previamente estabelecidas.

Sofia diz, por isso, preferir buscar informações na imprensa profissional, diante da disseminação de notícias falsas e conteúdos tendenciosos nas redes e em grupos de amigos.

Talvez um dos dados mais reveladores do levantamento esteja justamente nas conversas cotidianas.

Para 44% dos entrevistados, os diálogos sobre a campanha eleitoral são estressantes ou frustrantes. Apenas 28% consideram essas conversas interessantes e informativas. Outros 28% simplesmente afirmam não conversar sobre política.

Os sentimentos positivos também são minoritários. Somente 36% dizem sentir esperança diante do cenário político brasileiro, enquanto 29% se declaram entusiasmados.

O retrato desenhado pelo Observa DF é, portanto, de um eleitor que não abandonou a política, mas parece cansado da forma como ela vem sendo praticada e debatida.

Na capital da República, onde estão o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, a política permanece inevitavelmente próxima. Mas, entre interesse, frustração e polarização, o brasiliense parece ter encontrado uma nova maneira de participar: observa mais, informa-se à distância e se expõe menos ao confronto direto.

O levantamento ouviu mil eleitores residentes no Distrito Federal entre 7 e 15 de setembro de 2026. A amostra foi distribuída por 29 pontos de coleta, agrupados em cinco faixas de renda das regiões administrativas do DF.

A pesquisa informa nível de confiança de 95% e margem de erro de aproximadamente 3,1 pontos percentuais.

…………

Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

Compartilhar
1 comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *