Se a eleição do Distrito Federal fosse uma velha barbearia, a turma de Celina Leão teria saído neste domingo quase com o serviço completo. Fez a barba ao eleger Michelle Bolsonaro para o Senado, fez o cabelo com Bia Kicis na segunda vaga e deixou apenas o bigode pela metade, porque a governadora chegou a 49,93% dos votos válidos e ficou por poucos centésimos de encerrar também a disputa pelo Buriti no primeiro turno. Leandro Grass, com 34,48%, sobreviveu à lâmina e levou a eleição para 25 de outubro.
A brincadeira funciona porque traduz um resultado politicamente bastante concreto. Nas três disputas majoritárias realizadas no Distrito Federal neste domingo, o campo que sustentou Celina praticamente levou tudo. Michelle e Bia, ambas do PL e companheiras da governadora durante a campanha, conquistaram as duas cadeiras do Senado, enquanto Celina parou a sete centésimos da maioria absoluta. Eleição, no entanto, tem dessas pequenas crueldades: 49,93% pode ser quase tudo numa análise política, mas continua sendo menos de 50% na hora em que a Justiça Eleitoral faz a conta.
O desempenho no Senado ajuda a medir o tamanho da força desse campo. Michelle terminou em primeiro e Bia em segundo, numa dobradinha que ainda produziu recordes de votação para o cargo no Distrito Federal desde a redemocratização. As duas passarão a dividir a representação do DF com Damares Alves, do Republicanos, formando uma bancada inteiramente feminina e situada à direita. Cada eleitor dispunha de dois votos, e a chapa conseguiu fazer os dois nomes atravessarem juntos a linha de chegada, algo eleitoralmente mais relevante do que simplesmente somar percentuais isolados.
Nas proporcionais, a urna produziu uma composição mais misturada e talvez por isso até mais interessante. Max Maciel, do PSOL, foi disparado o deputado distrital mais votado e estabeleceu novo recorde no DF. Eduardo Pedrosa, do União Brasil, ficou em segundo lugar, seguido por Chico Vigilante, do PT. Logo depois vieram nomes de Republicanos, PL, PSB e outras legendas, numa distribuição que mostra como o eleitor conseguiu, no mesmo domingo, dar uma vitória muito forte à direita nas majoritárias e espalhar suas escolhas de maneira bem menos disciplinada quando chegou à Câmara Legislativa.
Esse resultado proporcional impede duas simplificações. A primeira seria dizer que Celina recebeu das urnas uma CLDF pronta e acabada para governar; a segunda, no sentido contrário, seria ignorar a quantidade de parlamentares e lideranças políticas com os quais seu grupo mantém relação e que podem compor uma base bastante confortável. No Distrito Federal, maioria parlamentar raramente sai lacrada da urna. Ela costuma ser construída depois, partido a partido, deputado a deputado, com uma flexibilidade que muitas vezes torna a filiação partidária uma informação importante, mas não necessariamente definitiva.
Para as próximas três semanas, entretanto, talvez seja menos importante saber quantos deputados estarão formalmente na base em janeiro do que perceber a estrutura que Celina tem imediatamente à disposição. São duas senadoras recém-eleitas, deputados federais e distritais eleitos, suplentes, candidatos que não conseguiram mandato, dirigentes partidários, administradores, lideranças regionais, cabos eleitorais e equipes que passaram meses circulando pelas regiões administrativas, formando grupos, procurando eleitores e identificando onde havia voto.
Essa tropa agora terá de continuar em campanha, e aí aparece o primeiro problema político real de Celina depois de um domingo tão favorável. No primeiro turno, cada candidato tinha o próprio número na urna e razões bastante pessoais para acordar cedo, visitar feira, telefonar para liderança, gravar vídeo e cobrar empenho da equipe. A partir de agora, muitos já estão eleitos, outros já sabem que perderam e todos terão de encontrar disposição para continuar fazendo campanha por mais três semanas em torno de um voto que já não será também um voto neles mesmos.
É uma questão menos aritmética do que humana, mas pode fazer diferença. Celina não precisa buscar uma multidão nova de eleitores, porque parte de uma votação encostada na maioria absoluta, porém precisa evitar que justamente a dimensão de sua vantagem produza acomodação. Depois de chegar a 49,93%, o pior sentimento que poderia circular entre seus aliados seria o de que o segundo turno se resume a comparecer no dia 25 para buscar um resultado que já estaria guardado em algum lugar.
Grass tentará trabalhar exatamente nessa fresta. Seus 34,48% o colocam mais de 15 pontos atrás e exigem uma expansão muito maior do que a necessária à adversária, mas a segunda rodada elimina as outras candidaturas e transforma uma disputa espalhada em escolha entre dois nomes. Isso não significa que os votos dados aos demais candidatos estejam esperando pelo petista, da mesma maneira que não existe garantia de que todos os eleitores de Celina voltarão à urna com a mesma escolha. O que muda é a natureza da campanha, porque agora cada lado sabe exatamente contra quem fala e qual eleitor precisa procurar.
A eleição proporcional também oferece a Grass algum material para trabalhar. As votações de Max Maciel, Chico Vigilante e de outros nomes da esquerda mostram que esse campo preserva bolsões importantes de mobilização no Distrito Federal, ainda que tenha sido claramente derrotado nas duas vagas para o Senado e tenha terminado atrás na disputa pelo Buriti. O desafio será transformar votações individuais fortes e territorialmente concentradas numa ampliação efetiva da candidatura ao governo, tarefa muito diferente de simplesmente somar os votos obtidos por partidos e candidatos no primeiro turno.
A disputa presidencial acrescentará outra camada. O eleitorado do Distrito Federal deu vantagem a Flávio Bolsonaro, enquanto Michelle e Bia saíram consagradas das urnas, o que oferece a Celina um campo nacional bastante definido para continuar explorando. Grass terá Lula novamente na urna e deverá tentar usar a eleição presidencial para aumentar a participação e a mobilização da esquerda. Como presidente e governador serão escolhidos no mesmo domingo, imaginar que as duas campanhas permanecerão isoladas seria exigir da política uma organização que ela raramente demonstra.
O saldo deste domingo, portanto, foi excelente para Celina, mas não perfeito, e talvez seja justamente isso que torne o segundo turno politicamente interessante. Seu campo conquistou as duas cadeiras do Senado, demonstrou força nas proporcionais, colocou uma rede extensa de aliados nas ruas e levou a governadora a sete centésimos de uma vitória no primeiro turno. Ao mesmo tempo, deixou aberta justamente a única disputa que ainda pode mudar de mãos.
Na barbearia eleitoral do Distrito Federal, barba e cabelo já estão feitos. Para terminar o serviço, Celina terá de convencer toda a turma que trabalhou no primeiro turno a permanecer com a tesoura na mão por mais três semanas.
Porque o bigode, por um fio, continuou na urna.

