O primeiro turno terminou com um recado claro. Com todas as urnas apuradas, Flávio Bolsonaro teve 56,1 milhões de votos, 47,03% dos válidos, contra 53,9 milhões de Lula, 45,16%. Foram 2,2 milhões de votos de vantagem. O segundo turno, em 25 de outubro, vai decidir mais do que um nome. Vai decidir que país enxerga o brasileiro.
Nesta segunda-feira, a bolsa respondeu antes de qualquer discurso. O Ibovespa abriu em alta de 8% e passou dos 207 mil pontos pela primeira vez na história. O dólar caiu mais de 4% e voltou para menos de R$ 5. No Polymarket, mercado de apostas que movimentou mais de 170 milhões de dólares nesta eleição, a chance de vitória de Flávio passou de 80%.
O BTG Pactual projetou que, com uma vitória de Flávio, as ações brasileiras podem voltar rapidamente à média histórica dos últimos dez anos, um potencial de alta de 11% a 20%. Os setores que mais devem se beneficiar são varejo, construção, mercado de capitais e empresas endividadas, ou seja, os que mais sofrem com juros altos.
Quem investe não vota com o coração. Vota com o bolso. E o bolso de quem aposta no Brasil disse que o país quer mudar de rumo.
Porque, nos últimos quatro anos, o Brasil foi dividido em tipos de gente.
No Carnaval de 2026, a Acadêmicos de Niterói levou para a Sapucaí um desfile em homenagem a Lula. Numa das alas, a escola colocou uma família tradicional, com pai, mãe e filhos, dentro de uma lata de conserva. Ao lado, evangélicos, militares e mulheres brancas, também enlatados.
Lula não desenhou a fantasia. Mas aceitou a homenagem, foi à avenida, desceu para cumprimentar a escola e vestiu suas cores. O desfile recebeu R$ 1 milhão do Ministério da Cultura. Ninguém do governo veio a público dizer que aquela não era a visão do presidente sobre as famílias brasileiras.
Se a família que reza, trabalha e cria os filhos é tratada como produto vencido, que tipo de brasileiro, afinal, cabe no projeto deles?
As falas do próprio presidente ajudam a responder. Sobre as mulheres, em março de 2024, dias depois do Dia Internacional da Mulher: “Eu preciso do meu pai me dar R$ 5 para comprar um batom, eu preciso do meu pai me dar R$ 10 para comprar uma calcinha.”
Sobre a diretora do FMI, em abril de 2025: “E lá eu encontro com uma mulherzinha, sabe, presidente do FMI.”
Sobre uma jovem negra num evento em São Paulo, em fevereiro de 2024: “Afrodescendente assim gosta de um batuque de tambor.”
Sobre violência doméstica depois de jogos de futebol, em julho de 2024: “Se o cara é corintiano, tudo bem.”
Em outubro de 2025, chegou a dizer que traficantes também são vítimas dos usuários. Depois, admitiu que a frase foi “mal colocada”. Um levantamento do Ranking dos Políticos contou 157 falas controversas de Lula desde 2023, e 43% delas ofendem grupos sociais.
Cada frase, sozinha, pode ser tratada como deslize. Juntas, mostram como ele olha para quem não pensa como ele.
Na noite em que trocou o debate da Globo por um podcast, Lula foi perguntado sobre por que alguém votaria em Flávio Bolsonaro. Resumiu milhões de brasileiros numa palavra: “A única coisa que ele tem é o chamado anti-Lula. É o anti-PT, que é o anti-esquerda.” E foi além: tratou esse eleitor como alguém que resiste aos avanços sociais.
Para Lula, quem não vota nele não tem ideias, não tem valores, não tem propostas. Tem apenas rejeição. É o mesmo olhar que coloca a família na lata e a mulher na dependência do pai para comprar um batom: o de quem divide o país entre os que concordam com ele e os que estão errados.
Três dias depois, 56 milhões de brasileiros responderam nas urnas. Não foi só rejeição. Foi o trabalhador cansado de imposto, a família que quer escola com ordem, o fiel que não aceita ser ridicularizado, o pequeno empresário que quer crédito sem IOF dobrado.
Chamar essa gente de “anti” é não querer ouvi-la. E quem não ouve metade do país não pode governar o país inteiro.
E há um tipo de brasileiro que o governo nunca esqueceu: o que paga imposto.
Em 2023, voltou o PIS/Cofins que havia sido reduzido. Em 2024, veio a taxa de 20% sobre compras internacionais de até 50 dólares, a “taxa das blusinhas”, que atingiu justamente quem compra barato. Também voltou a cobrança cheia de tributos sobre os combustíveis. Em 2025, subiu o IOF do cartão de crédito no exterior, do câmbio em dinheiro e do crédito para empresas. Subiram ainda a tributação das apostas, a CSLL de bancos e seguradoras e o imposto sobre juros sobre capital próprio. A folha de pagamento voltou a ser onerada aos poucos.
O governo diz que é justiça fiscal. Mas pergunte ao trabalhador que comprava uma roupa pela internet, ao pequeno empresário que pega crédito para pagar a folha, à família que abastece o carro: a vida ficou mais leve ou mais pesada?
O Brasil não é feito de categorias. Não existe brasileiro de primeira e de segunda, família que vale e família que vai para a lata, eleitor que pensa e eleitor que só é “anti”.
No dia 25, a escolha não é só entre dois candidatos. É entre um projeto que divide o país em tipos de gente e outro que enxerga o brasileiro como ele é: trabalhador, de família, de fé, que paga imposto e quer ser respeitado.
Abra a lata. O Brasil não cabe nela.

