Há votos que escolhem nomes. E há votos que mandam recados. O que saiu das urnas neste domingo foi um recado.
Na disputa presidencial, com todas as urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula: 47,03% contra 45,16% dos votos válidos, uma vantagem de 2,2 milhões de votos. A decisão fica para 25 de outubro, mas o país já disse de que lado está o vento. Nesta segunda, o Ibovespa passou dos 207 mil pontos pela primeira vez na história.
No Senado, o recado foi ainda mais claro. O PL elegeu 19 dos 54 senadores em disputa e terá 28 cadeiras a partir de 2027, a maior bancada da Casa. O PT terá 9. Das 54 vagas, apenas 14 ficaram com senadores reeleitos. As outras 40 terão rostos novos.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, ocuparam as duas cadeiras. Leila Barros, que tentava a reeleição, ficou de fora.
Ninguém defende a depredação dos prédios dos Três Poderes. Quem quebrou deve responder pelo que quebrou. Mas o país inteiro viu o que veio depois.
Mais de 1.700 ações penais foram abertas. Até abril deste ano, cerca de 1.400 pessoas tinham sido condenadas. Entre elas, gente simples, muitos sem nenhuma liderança, nenhum plano, nenhuma arma, punidos com penas que somavam crimes até chegar a 14, 15, 17 anos de prisão.
O brasileiro comum olhou para isso e perguntou: é justiça ou é exemplo? É proporção ou é recado?
Essa pergunta chegou ao Congresso. Deputados e senadores aprovaram a Lei da Dosimetria, que impede a soma de penas por crimes cometidos no mesmo contexto e permite reduzir de um a dois terços a pena de quem participou de atos em multidão sem papel de liderança.
O presidente Lula vetou a lei justamente no dia 8 de janeiro de 2026. O Congresso derrubou o veto em 30 de abril, e a lei foi promulgada em maio. Segundo o STF, 431 condenados a prisão podem ter as penas revistas.
Foi a primeira vez em anos que o Legislativo disse ao Supremo, com voto e com lei: há limite. Os freios e contrapesos funcionaram. E neste domingo o eleitor mostrou que quer mais.
Por estado, o recado se repete
Distrito Federal: sai Leila Barros (PDT). Entram Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL).
Santa Catarina: sai Esperidião Amin (PP). Entram Carol de Toni (PL) e Carlos Bolsonaro (PL).
Mato Grosso do Sul: sai Soraya Thronicke (PSB). Entram Reinaldo Azambuja (PL) e Capitão Contar (PL).
Rio de Janeiro: Carlos Portinho (PL) é reeleito, ao lado de Carlos Jordy (PL).
Rondônia: entram Dr. Fernando Máximo (PL) e Bruno Scheid (PL).
Paraná: entram Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo).
Goiás: sai Vanderlan Cardoso (PSD). Entra Gustavo Gayer (PL).
Minas Gerais: sai Carlos Viana (PSD). Entra Domingos Sávio (PL).
Espírito Santo: saem Fabiano Contarato (PT) e Marcos do Val (Avante).
Amapá: sai Randolfe Rodrigues (PT).
O Senado que toma posse em fevereiro de 2027 não será o mesmo que assistiu calado aos últimos quatro anos.
Pode-se discordar do tom, das bandeiras, dos candidatos. Mas não se pode ignorar o que as urnas disseram. O eleitor brasileiro não votou contra a Justiça. Votou por uma Justiça que trate todos com a mesma régua, que não confunda punição com vingança e que se lembre de que também está sujeita à Constituição.
Para julgar um ministro do Supremo, são necessários 54 dos 81 senadores. O PL sozinho terá 28. O caminho é longo, e passa pela presidência do Senado, que decide se um pedido anda. Mas, pela primeira vez em muito tempo, essa conta deixou de ser impossível.
O Senado não vai “limpar” o Supremo num estalar de dedos. Vai fazer algo mais importante: lembrar ao país que nenhum Poder está acima dos outros. Neste domingo, o povo elegeu senadores. Em 25 de outubro, escolhe o presidente. E a partir de fevereiro, vai cobrar de todos eles a verdade.

