Por que preocupar-me com quem não se preocupa consigo mesmo?

Redação
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Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Graças ao Deus onipotente, onipresente e de todos os brasileiros, não sou rico, não tenho amor patológico ou dependência afetiva pelos Estados Unidos, não tenho filiação partidária, mas simpatia política, tampouco ufanismos patrióticos capazes de me desequilibrar mental e emocionalmente. Sou um cidadão comum, mas sou formado, tenho casa própria, automóvel, plano de saúde, filhas formadas e também com residências e carros sem dívidas e, o que é mais relevante, disponho de renda suficiente para comer e beber o que eu quiser e onde quiser.

Portanto, me considero privilegiado, pois não dependo do Estado, muito menos precisei apoiar esse ou aquele candidato para garantir vantagens pessoais ou para massagear o ego carente de vitórias eventualmente significativas. Por essas razões, não votei pensando exclusivamente em mim, mas principalmente naqueles que não têm nada disso, naqueles que pagam aluguel, sofrem nas filas dos hospitais públicos, vivem de subempregos, andam em trens, metrôs ou ônibus lotados, comem e bebem muito mal e necessitam da escala 6×1.

Uma pena, mas de nada adiantou. Infelizmente, as pessoas que passam privações não pensaram nelas próprias. São as que dependem do humor dos patrões para permanecerem empregadas, se humilham em busca de uma vaga em escolas do Estado ou do município para seus filhos e, principalmente, lamentam o crescimento da violência, a desenfreada ação das milícias e o avanço do crime organizado. E o que fizeram? Votaram contra o presidente que, apesar de algumas mazelas pessoais e de todas as adjetivações negativas, sempre pensou no social.

Resumindo, eu votei e sempre votarei de olho no futuro que a pátria pode e deve oferecer à população trabalhadora. Como o povo pelo qual eu e milhões de brasileiros se angustiam não está nem aí, azar o dele. É assim que avalio o resultado da eleição em que a chamada minoria, os desfavorecidos, ajudou a eleger personagens da extrema-direita, segmento cujos representantes só pensam neles e que sabidamente nunca fizeram nada em benefício da nação. Então, só me resta desejar aos eleitores pobres que adoram os ricos que façam bom proveito das sobras da riqueza de outrem.

Sou de uma época em que a política já era safada, mas os políticos e o povo demonstravam um pouco mais de seriedade e de aflição com a escravização do trabalhador. Democraticamente, sei que receberei merecidas críticas por tornar público o fim de meu desassossego com os menos favorecidos. Azar o deles se o novo Congresso Nacional, de maioria absoluta de parlamentares ligados às questões, aos anseios e à dominação da extrema-direita, determinar que, a partir de janeiro, todos teremos de ser leais ao rei, sob pena de chicotadas ou de cassação da liberdade.

Difícil acreditar, mas eu vi pessoas de religiões diariamente perseguidas assumindo que votaram para empoderar pastores evangélicos. O que fazer se quem sofre ama sofrer? Nada, além de me abster e de fechar os olhos para a desgraça alheia. Se é isso que querem, é isso que terão. Sou amplamente a favor da alternância de poder. Entretanto, sou contra a cantilena da mudança somente porque os eleitores classes C e D ouviram dizer que o atual presidente da República é comunista e que persegue os adversários.

Obviamente que estou frustrado com o resultado eleitoral do último domingo. Todavia, como cidadão que defende a democracia com unhas e dentes, desejo sorte ao presidente da família e dos amigos. Quanto aos quase 56 milhões de eleitores que se manifestaram a favor da tirania e aos 33 milhões que se abstiveram de votar, finalmente eles terão de volta o governo que merecem. Boa sorte a todos aqueles que ainda acreditam em fadas, duendes e mitos.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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