Dois dias antes da eleição, o Datafolha dava Lula cinco pontos à frente no primeiro turno: 45% contra 40% dos votos válidos. A urna desmentiu. Flávio Bolsonaro terminou em primeiro, com 47,03%, pouco mais de 56,1 milhões de votos. Lula ficou com 45,16%, cerca de 53,9 milhões. A diferença foi de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
A pesquisa mede intenção. A urna conta votos. E, quando as duas discordam, quem fala por último é a urna.
O segundo turno começou antes mesmo de os palanques serem remontados. E começou onde normalmente se decidem disputas apertadas: não entre quem já escolheu Flávio ou Lula, mas entre os milhões de brasileiros que votaram num terceiro candidato, votaram em branco, anularam ou não compareceram.
A vantagem de Flávio tem peso político, porque lhe entrega a condição de vencedor da primeira etapa. Mas está longe de resolver a eleição de 25 de outubro. O verdadeiro tesouro eleitoral está espalhado entre os candidatos que ficaram pelo caminho.
Augusto Cury recebeu cerca de 3,45 milhões de votos. Renan Santos, 2,68 milhões. Ronaldo Caiado, 2,61 milhões. Somados, os três reuniram cerca de 8,7 milhões de votos, quase quatro vezes a diferença entre Flávio e Lula.
E as pesquisas anteriores ao primeiro turno já mostravam para onde esse eleitor tende a ir. No Datafolha, entre os eleitores de Cury, 44% escolheriam Flávio numa disputa direta contra Lula, 30% migrariam para o petista e 24% votariam em branco ou anulariam. Entre os eleitores de Caiado, a divisão era de 46% para Flávio, 30% para Lula e 22% entre brancos e nulos. No eleitorado de Renan Santos, 54% preferiam Flávio e 28% preferiam Lula.
Não se trata de somar votos numa calculadora. Eleição não funciona assim. Mas a inclinação é clara, e favorece o candidato do PL.
A disputa por esse patrimônio começou logo depois do resultado. Segundo a imprensa, o primeiro movimento de peso veio de Michel Temer, que declarou apoio a Flávio e apresentou sua escolha como uma alternativa de “reconexão” do país. O peso dessa manifestação vai além dos votos que Temer possa transferir. Ele conversa com um eleitorado diferente do bolsonarista tradicional e ajuda Flávio a construir pontes com o MDB, o centro político, o empresariado e setores conservadores que não se identificam integralmente com o bolsonarismo.
Depois veio Romeu Zema, que foi explícito ao anunciar o voto em Flávio. Teve apenas 0,27% dos votos válidos na corrida presidencial, mas sua importância não se mede só por esse percentual. Minas Gerais segue entre os maiores colégios eleitorais do país, e qualquer deslocamento de votos no estado ganha dimensão nacional.
Ronaldo Caiado representa um ativo mais volumoso: terminou o primeiro turno com 2,18% dos votos válidos, cerca de 2,6 milhões de eleitores. O anúncio formal de seu apoio a Flávio está previsto para esta terça-feira, em Goiânia. O PSD nacional liberou lideranças, diretórios e filiados para escolherem seus caminhos no segundo turno.
Augusto Cury é o apoio mais cobiçado. Até agora, mantém a neutralidade e afirmou que ninguém está autorizado a falar em seu nome. Mas suas propostas falam por si: mandato fixo para ministros do Supremo e fim da reeleição. São bandeiras de quem acha que o poder ficou concentrado demais e por tempo demais.
Há, porém, uma advertência indispensável. Temer pode declarar voto, Zema pode subir no palanque, Caiado pode fazer campanha. Nenhum deles é proprietário dos votos de seus campos políticos. O eleitor brasileiro já mostrou, repetidas vezes, independência em relação às orientações partidárias. A transferência precisa ser conquistada voto a voto. Por isso, as próximas pesquisas dirão mais do que qualquer soma: mostrarão se a movimentação está chegando ao eleitor ou se fica restrita às fotos de palanque.
O paradoxo deste segundo turno está nos números. Flávio entrou na disputa final cerca de 2,2 milhões de votos à frente. Só Cury recebeu mais do que essa diferença. Cury, Renan e Caiado somaram cerca de 8,7 milhões. E a abstenção foi de 21,08%: mais de 33 milhões de brasileiros não foram às urnas, sem contar os milhões que votaram em branco ou anularam.
A campanha de Lula já identificou esse terreno. Segundo relatos publicados após a eleição, uma das prioridades petistas será reduzir a abstenção e buscar quem ficou fora da decisão no primeiro turno. Lula terá de reconstruir pontes com o eleitorado que não aderiu a ele e convencer parte dos ausentes a comparecer.
É aí que mora o recado para quem quer mudança. A vantagem do primeiro turno não está garantida. Quem ficou em casa no dia 4 tem, no dia 25, a chance de decidir o futuro do país. E quem votou pela mudança precisa voltar à urna com a mesma disposição.
Flávio tentará transformar o primeiro lugar numa onda e mostrar que a direita e parte do centro fecharam fileiras. Lula tentará impedir que essa fotografia vire uma frente consolidada, enquanto busca votos entre os derrotados, os moderados e os que ficaram em casa.
A primeira batalha foi vencida por Flávio Bolsonaro, por 47,03% a 45,16%, contra o que diziam as pesquisas. A segunda começa praticamente do zero, porque entre uma eleição e outra os votos não são herdados, são disputados de novo. Os 2,2 milhões de votos que hoje separam Flávio de Lula parecem pequenos diante dos milhões que estão sobre a mesa. Mas a direção do vento, a urna já mostrou.

