Abro este texto em verso,
como manda a tradição:
quem quer saber do Brasil
precisa ouvir o Sertão.
Foi no voto, e não no grito,
que se ouviu a mudança, então.
O cordel sempre foi o jornal de quem não tinha jornal. Pendurado no barbante da feira, contava ao povo o que os poderosos não contavam. A história que as urnas escreveram em 4 de outubro merece um cordel.
No Sertão, o mandacaru é o sinal de que a vida resiste. Quando todo o resto seca, ele floresce. E o sertanejo sabe: quando o mandacaru dá flor, a chuva está perto.
O primeiro turno teve cara de mandacaru. Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. E o mais revelador: em relação a 2022, Lula perdeu votos em todas as regiões do país. No Sul, caiu 5,5 pontos. No Centro-Oeste, 5,2. No Sudeste, 2,9. No Norte, 2,5.
Até no Nordeste, onde o presidente ainda venceu com folga, a flor apareceu. Lula caiu 3 pontos em relação a 2022, e Flávio teve 3,9 pontos a mais do que Jair Bolsonaro há quatro anos. Não é uma virada. É um sinal. E quem é do sertão sabe ler sinal.
No bumba meu boi, o boi morre no meio da festa. O povo chora, o povo lamenta. Mas aí chega o pajé, faz a reza, e o boi se levanta. A festa recomeça mais forte do que antes.
Muita gente deu como morta a esperança de mudança no Brasil. Disseram que a eleição estava decidida, que não havia o que fazer. O boi se levantou no dia 4. E não se levantou sozinho: levantou-se com 56 milhões de votos, com a maior bancada do Senado e com a bolsa batendo recorde no dia seguinte.
No mamulengo, o mestre se esconde atrás do pano e mostra só os bonecos. A plateia se encanta, aplaude e vai embora. Terminado o espetáculo, cada boneco volta para a mala.
No dia da votação, Lula posou com a bandeira do Brasil para os fotógrafos e, terminadas as fotos, entregou-a ao fotógrafo oficial, que a guardou no bolso. Não houve desrespeito, e quem disse o contrário mentiu. Mas a cena verdadeira já basta: a bandeira apareceu quando havia plateia e saiu de cena quando a foto acabou.
O sertanejo sabe a diferença entre o boneco e o homem. O boneco aparece na festa. O homem aparece na seca.
Durante anos, a promessa foi a moeda mais forte da política brasileira. Prometia-se picanha, prometia-se emprego, prometia-se um país mais leve. O eleitor acreditou, esperou e cansou. Promessa repetida demais perde o valor, como cédula que passa de mão em mão até ninguém mais aceitar.
Já não há promessa que resista à conta do supermercado, ao imposto que subiu, ao crédito que ficou mais caro. O brasileiro de hoje tem no bolso um celular que mostra o que antes ficava escondido. Ele lê, compara, desconfia, pergunta. A informação chegou ao sertão, à periferia, à cidade pequena. E com ela chegou uma consciência que assusta quem sempre contou com o eleitor desatento: a de que o voto tem poder.
O voto de cada um, somado, pode tirar do comando quem se acostumou a operar o sistema. Foi o que o primeiro turno começou a mostrar.
Quem passou anos construindo narrativas está prestes a ouvir a verdade. E a verdade, desta vez, não vem de manchete nem de palanque. Vem da urna. O povo acordou.
Todo cordel termina com uma lição. Esta é simples: o Brasil não pediu um espetáculo. Pediu mudança. E começou a dizer isso nas urnas.
No dia 25, o povo escreve o último verso.
O mandacaru deu flor,
o boi voltou a dançar,
o boneco foi pra mala,
e o povo há de votar.
No vinte e cinco de outubro
é o Brasil que vai falar.

