A edição da revista Veja desta sexta-feira, 9, acrescenta um novo capítulo ao escândalo do Banco Master. Em reportagem assinada por Robson Bonin, a publicação revela áudios e documentos nos quais Daniel Vorcaro afirma ter destinado recursos milionários a um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o banqueiro, os pagamentos teriam ocorrido de maneira irregular, diferentemente do patrocínio concedido à produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
O valor mencionado pela revista chega a R$ 30 milhões em espécie, supostamente destinados ao documentário sobre Lula e ao Instituto Lula, além de outro repasse cujo montante não foi especificado. A reportagem associa as negociações ao ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e a Paulo Okamotto, dirigente ligado ao Instituto Lula. As acusações ainda dependem de comprovação independente.
O relato de Vorcaro vai além do financiamento cinematográfico. Segundo a Veja, o banqueiro descreve uma negociação envolvendo fundos de pensão de empresas federais, na qual teria sido exigida uma comissão de 10% sobre recursos captados pelo Banco Master.
A operação, caso tivesse alcançado os valores pretendidos, poderia movimentar R$ 10 bilhões, dos quais R$ 1 bilhão seria destinado a pagamentos ilícitos, conforme a versão atribuída ao banqueiro.
A revista também cita Alexandre Padilha, então ministro da Secretaria de Relações Institucionais, e Olavo Noleto, então secretário-executivo da pasta, entre os personagens mencionados por Vorcaro. A publicação não estabelece, por si só, a responsabilidade criminal dos envolvidos.
Versões diferentes
O contraste apresentado pelo banqueiro chama atenção porque o financiamento de Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro, já havia sido objeto de reportagens e investigações.
Em maio, vieram a público mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e Vorcaro sobre o financiamento do longa-metragem. O senador afirmou que se tratava de patrocínio privado, sem utilização de recursos públicos. A Polícia Federal passou a examinar a movimentação financeira relacionada à produção.
Agora, a versão atribuída a Vorcaro introduz outra suspeita: a de que os recursos relacionados ao documentário sobre Lula teriam sido movimentados fora dos mecanismos regulares de patrocínio. O documentário Lula, dirigido por Oliver Stone, foi lançado em 2024.
A divulgação das informações já provoca reação. Conforme noticiou a Folha de S.Paulo, o grupo jurídico Prerrogativas anunciou que solicitará à Polícia Federal a investigação de uma possível tentativa de produzir um depoimento falso contra o presidente.
O advogado Marco Aurélio Carvalho, coordenador do grupo e aliado de Lula, afirma ter recebido informações de que Vorcaro teria sido incentivado a apresentar acusações contra o petista em troca de benefícios judiciais para ele e seu pai.
Carvalho também nega que o documentário de Oliver Stone tenha recebido financiamento do banqueiro. Essas alegações, assim como as acusações publicadas pela Veja, precisam ser verificadas pelas autoridades.
A Presidência da República já havia negado, em maio, que Lula ou o governo tivessem solicitado recursos para financiar o documentário.
As revelações colocam novamente em discussão o relacionamento de Vorcaro com integrantes de diferentes grupos políticos.
Além dos filmes relacionados a Lula e Bolsonaro, a própria Veja já havia noticiado um aporte de R$ 1 milhão de um fundo ligado à família Vorcaro ao documentário 963 Dias, sobre Michel Temer. O financiamento foi confirmado pelo produtor executivo da obra.
Em meio à campanha presidencial, a controvérsia ganha relevância política. Entretanto, a questão central permanece no terreno da investigação: determinar se os recursos foram efetivamente transferidos, identificar sua origem, seus destinatários e as condições em que teriam sido negociados.
A distinção entre patrocínio privado, eventual pagamento não declarado e possível vantagem indevida será decisiva para esclarecer os fatos.
Por enquanto, há acusações atribuídas ao banqueiro, documentos e áudios divulgados pela imprensa, além de negativas e versões conflitantes. Caberá à investigação estabelecer quais delas encontram respaldo nas provas.
………
Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras


gbqDOjWXZvYsPHBwD