Ganhando ou perdendo, show da vida deve continuar mostrando felicidade

Redação
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Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Imagens/IA

Bem longe do estilo Jeca Tatu, igualzinho ao promotor de medicamentos sem eficácia alguma, cresci como menino levado, parceiro do Jeca Total. Jamais concordei com a tese vestibulanda de que a felicidade tem a ver com o tamanho da conta bancária, com as viagens ao exterior ou com o carro do ano. Percebi que ela (a felicidade) é algo muito mais valioso quando agradei meu gerente com um polpudo saldo médio. Também não a encontrei. Consolidei meus ideais mais simplórios ao descobrir que viajar pelo interior de Fiat Uno duas portas me garantia o mesmo prazer de fazer o trajeto montado em uma Mercedes.

Isso quando eu conseguia chegar. Eleger o presidente dos meus sonhos virou utopia. Nada de mais para quem só pensa em ser feliz. Robusteci a ideia de ser humano humanizado ao notar que, embora tenhamos ideologias diferentes, eu e meu vizinho ocupamos o mesmo espaço. Logo, somos iguais. Passei a prestar atenção no que havia à minha volta, esqueci a revolta política e deixei definitivamente de ser infeliz. Longe de mim falar sobre a necessidade de o povo votar bem e da desnecessidade do dinheiro, mas, antes dele ser prioridade, é preciso valorizar o que se tem agora. Pensando nisso, mesmo sendo derrotado politicamente, não deixo mais de aproveitar os pequenos e bons momentos.

Afinal, ao partirmos deste mundo terreno e da vida que é uma escola só deixamos saudades e não levamos sequer uma sacola. Enfim, felicidade é só uma questão de ser. Ela pode ser um barquinho de papel, um freezer até o topo de cerveja, um Congresso de senhores sérios e honestos e também uma camisinha furada. Como sentimento que não tem idade e não acaba, ela só depende de nós.  mas, com o passar do tempo, tende a mudar de lugar. Muitas das vezes, mais importante do que o amor perdido e o título de eleitor sem valor é o sussurro nas orelhas, seguido de um dedo ungido e melado de vaselina durante o exame de próstata.

É fechar os olhos, tirar a maquiagem pesada e enganadora de macho, mostrar a cara e viajar com destino ao Eden. Contrariando o poeta e minhas próprias convicções, eis o motivo mais autêntico de se buscar a mais dolorida e prazerosa forma de felicidade. Filósofos e especialistas no uso do dedo médio da mão direita são unânimes em afirmar que a lei do sorriso largo revela que certos prazeres trazem mais dor do que felicidade. Segundo eles, quando as duas se encontram, não há quem segure as batidas aceleradas de gratidão imaginária guardadas do lado direito do peito. Portanto, deixem de lado o baixo astral e permitam a entrada de luz por onde só sai lombrigas.

Preservados o bigode e os pelos “pluvianos”, é fundamental não esquecer que, antes da viagem definitiva, os olhos caem, os lábios murcham, o saco encolhe, as pernas bambeiam, as mãos enrugam e o pinto para de piar. Por essas razões, é bom transformar os detalhes, as minúcias e as filigranas em algo capaz de somar à existência. Com muita paciência, amadurecimento e valorização de minha jornada terrestre, fiz isso e não me arrependo. Embora não tenha mais pressa, procuro não perder tempo. Diria que caí na real. Dos 10 aos 20, dos 30 aos 50 e até hoje vivo como alguém que optou por ser normal.

Atualmente estou cada vez mais distante daquele que um dia se julgou uma águia escolhendo o que iria comer. Décadas após ter nascido, lembro mais um papagaio, daqueles que fala, fala e não pega ninguém. Talvez esteja mais para um lobo bom, do tipo que dispensa a Chapeuzinho Vermelho porque não consegue viver longe da vovozinha. Resumindo, estou próximo do beco sem saída. Não que pareça, mas me acho um elefante com a tromba bem caidinha. Talvez um pato manco, sem qualquer condição de dançar o Lago dos Cisnes ou de assistir na TV a série que fala do afogamento do ganso. O tempo acalmou minha sede. Como um bom vinho, apurei. Eis a razão do envelhecimento do corpo, mas não da emoção. É a minha felicidade. Deveria ser a de todos. Enfim, haja o que houver, o show tem de continuar.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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