Eli Lisboa, o príncipe das Cinderelas que nunca perdem o seu sapatinho

Redação
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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Quando se trata de literatura, sou um sujeito eclético. Transito com a mesma desenvoltura entre a inocência de Cinderela, dos Irmãos Grimm, e os labirintos psicológicos de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Gosto das fadas que transformam abóboras em carruagens, mas também dos personagens que carregam nas costas o peso de suas próprias escolhas. Afinal, a vida é uma biblioteca onde cada pessoa escreve seu romance, sua tragédia ou sua fábula. Algumas, mais afortunadas, conseguem escrever as três coisas sem perder a elegância.

Eli Lisboa, entretanto, parece ter escolhido o encantamento como um quarto gênero literário. Na segunda-feira, 12, enquanto multidões de fiéis ocupavam igrejas e santuários para homenagear Nossa Senhora Aparecida, um grupo de amigos resolveu celebrar outro tipo de devoção. Nada de procissões, velas acesas ou promessas de joelhos. O altar era uma mesa de restaurante, o incenso vinha dos aromas da cozinha e a liturgia consistia em brindar a vida de um aniversariante que, há duas décadas, trocou o interior de Minas Gerais pela capital da República.

O santo do dia, com todo o respeito à Padroeira do Brasil, chama-se Eli Lisboa. Entre os convidados, havia personalidades diferentes, histórias diversas e maneiras próprias de enxergar o mundo. Mas uma particularidade distinguia o homenageado. Afinal, era o único à mesa que se apresentava, com orgulho e sem pedir licença, como integrante da comunidade LGBT+. Não fazia disso uma bandeira para constranger ninguém, tampouco escondia sua identidade debaixo da toalha. Eli simplesmente é quem é, e se encaixa aí, precisamente, uma de suas maiores virtudes, a de quem aprendeu que a felicidade não precisa de autorização, muito menos de carimbo em cartório.

As conversas, naturalmente, acabaram desembocando em sua atividade profissional. Eli integra o universo da Luiza Barcelos, grife de calçados, bolsas e acessórios femininos, em uma de suas unidades de Brasília. Mas seria uma injustiça classificá-lo apenas como vendedor. Vendedores oferecem mercadorias, enquanto Eli oferece sonhos com numeração, cor, salto e acabamento.

Permito-me a audácia para enfatizar ser justamente aí que entram os Irmãos Grimm. Na velha fábula, Cinderela vivia submetida aos caprichos da madrasta e das irmãs, até que uma fada madrinha resolveu interferir no destino. Com uma varinha de condão, transformou andrajos em vestido de princesa, ratinhos em cavalos e uma abóbora em carruagem. A jovem foi ao baile, encantou o príncipe e fugiu antes da meia-noite, quando a magia perderia a validade. Na pressa, deixou um sapatinho de cristal na escadaria do palácio.

O príncipe, apaixonado, mobilizou o reino inteiro. Mandou experimentar o delicado calçado nos pés de princesas, duquesas, condessas e plebeias. Não importavam títulos de nobreza, sobrenomes ou fortunas. O sapatinho tinha uma única dona, e era preciso encontrá-la.

Pois bem. Se o príncipe daquela história tivesse conhecido Eli Lisboa, teria economizado uma fortuna em mensageiros e cavalos. Bastaria entregar-lhe o sapatinho, porque Eli descobriria a dona antes mesmo de ela experimentar o calçado. Não por adivinhação, mas por sensibilidade, porque o aniversariante do dia não enxerga em sua clientelas apenas pés, mas principalmente a alma de quem está sendo atendida.

Na boutique, sua varinha de condão não é feita de madeira encantada, mas construída com paciência, atenção, delicadeza e uma extraordinária capacidade de compreender o universo feminino. Ele sabe que uma mulher nem sempre entra numa loja procurando apenas um sapato. Às vezes, procura autoestima, e, em outras ocasiões, deseja recuperar uma alegria perdida, celebrar uma conquista ou simplesmente presentear a si mesma depois de um dia em que o mundo pareceu pesado demais.

Eli consegue perceber essas sutilezas. Uma sandália pode transformar-se em passaporte para uma noite inesquecível, uma bolsa pode carregar muito mais que batom, documentos e telefone celular, como também acontece de guardar segredos, esperanças e pequenas revoluções pessoais. Um salto alto, por sua vez, não aumenta apenas alguns centímetros na estatura. Dependendo de quem o calça, eleva a mulher à altura dos próprios sonhos.

Descobri, ao longo do tempo, que Eli conhece essa alquimia. Ele chegou a Brasília há vinte anos, trazendo na bagagem a mineirice, a coragem e aquela sabedoria de quem aprende cedo que o mundo não oferece carruagens prontas; acima de tudo, é preciso construí-las. Ele não encontrou fada madrinha à sua espera, muito menos um príncipe disposto a abrir as portas de um castelo. Por isso traçou o próprio caminho, conquistou seu espaço e transformou o trabalho em instrumento de reconhecimento.

Tudo isso sem crime, sem castigo, sem precisar recorrer aos tormentos de Raskólnikov, personagem de Dostoiévski. Sua história não tem sido escrita com sangue, culpa ou remorso, mas construída com persistência, respeito e uma elegância que não se compra nas vitrines. Por isso suas clientes enxerguem nele algo que ultrapassa a relação comercial. Há cumplicidade, confiança e aquele entendimento silencioso que, em muitos casos, só cabe no coração de uma mãe.

E Eli tem esse coração, do tipo maternal que acolhe, aconselha, protege e, quando necessário, sabe dizer que determinado sapato, por mais bonito que seja, não combina com a mulher que pretende levá-lo. Porque vender por vender é coisa de comerciante apressado. Já encantar é privilégio de quem compreendeu que fidelidade não se conquista com descontos, mas com afeto.

Na mesa do restaurante, entre risadas, lembranças e brindes, percebi que Eli havia conseguido uma façanha que nem os Grimm nem Dostoiévski imaginaram. Foi reunir, no mesmo capítulo, personagens diferentes, unidos não por interesses ou conveniências, mas pela amizade. E isso, convenhamos, é uma raridade num mundo em que tantos relacionamentos têm prazo de validade menor que o encanto da carruagem de Cinderela.

O aniversário passou, os pratos foram recolhidos, as taças esvaziaram e cada convidado tomou o caminho de casa. Não houve badalar de meia-noite anunciando o fim da magia e nenhuma carruagem virou abóbora e sequer um sapatinho ficou abandonado na escadaria. Mesmo porque, Eli não precisa procurar Cinderelas perdidas pelo reino; elas chegam diariamente à sua loja, algumas sorridentes, outras preocupadas, todas carregando histórias que merecem atenção. E saem de lá não necessariamente princesas, porque mulheres não precisam de títulos de nobreza para serem extraordinárias. Saem simplesmente mais felizes, mais confiantes e, sobretudo, mais bonitas aos próprios olhos.

No fundo, descobri que Eli é uma espécie de fada madrinha que dispensou asas, coroa e varinha de condão. Ele é daqueles que prefere trabalhar entre vitrines, caixas de sapatos e bolsas elegantes, espalhando uma magia que não desaparece à meia-noite.

E, se me permitem uma última licença literária, me atrevo a corrigir os Irmãos Grimm. Na história original, foi um sapatinho que ajudou Cinderela a encontrar seu príncipe. Na história de Eli Lisboa, são os sapatos que ajudam inúmeras Cinderelas a descobrir que não precisam de príncipe algum para viver felizes. Por fim, ficam meus votos para que a vida do aniversariante continue sendo uma fábula sem madrastas cruéis, sem castigos de Dostoiévski e, principalmente, sem relógios anunciando o fim dos encantamentos. Porque amigos verdadeiros, ao contrário dos sapatinhos de cristal, não se quebram com facilidade. E os melhores, como Eli, jamais saem de moda.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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