No saguão do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, o homem que a partir de fevereiro ocupará uma cadeira no Senado Federal circulava como qualquer passageiro. Marcel van Hattem, senador eleito pelo Rio Grande do Sul, não perdeu o hábito de parar para conversar. É um traço que explica boa parte da trajetória dele.
Van Hattem nasceu em São Leopoldo e começou a vida profissional entregando jornais. Depois virou repórter do Jornal Dois Irmãos, na cidade do Vale do Sinos, onde cresceu. Em 2004, aos 18 anos, foi eleito vereador do município.
A política local não o afastou dos estudos. Formou-se em Relações Internacionais, especializou-se em Direito, Economia e Democracia Constitucional e fez dois mestrados na Europa: Ciência Política, na Universidade de Leiden, na Holanda, e Jornalismo, Mídia e Globalização, nas universidades de Aarhus, na Dinamarca, e de Amsterdã. Trabalhou ainda na divisão internacional do Ministério de Assuntos Econômicos, Agricultura e Inovação da Holanda, em Haia.
De volta ao Brasil, assumiu uma vaga na Assembleia Legislativa gaúcha em 2015, como primeiro suplente do PP, e exerceu o mandato até 2018. Naquele ano, filiou-se ao Novo e disputou a Câmara dos Deputados, sendo eleito com 349.855 votos. Em 2022, reeleito com 256.913. Na Câmara, foi mais de uma vez líder da bancada do Novo.
Num cenário em que a força da direita se concentrou no PL, Van Hattem permaneceu no Novo, um partido que até esta eleição convivia com o risco da cláusula de barreira. O risco não se confirmou, porque a legenda superou a cláusula, elegeu dez deputados federais e três senadores, entre eles Van Hattem, Deltan Dallagnol, no Paraná, e Lahesio Bonfim, no Maranhão.
A permanência diz algo sobre o perfil dele. Ficar num partido menor, que não distribui o maior tempo de TV nem os maiores fundos, é uma escolha de convicção, não de conveniência.
Van Hattem é um liberal na economia e conservador nos costumes. As prioridades que declarou à Justiça Eleitoral resumem o mandato que promete, como combate à corrupção, economia forte e segurança pública que o povo ande nas ruas sem medo. Nas redes, os temas que mais tratou nos últimos meses foram justiça e instituições.
Sobre o Supremo Tribunal Federal, a posição dele é conhecida. Defende o fim das decisões monocráticas, aquelas tomadas por um único ministro, e já pediu publicamente o impeachment do ministro Alexandre de Moraes. Na segurança, apoia a redução da maioridade penal e o fim das saídas temporárias de presos. Na CPMI do INSS, foi uma das vozes que cobraram o governo pelas fraudes contra aposentados.
Em 4 de outubro, o Rio Grande do Sul elegeu dois senadores de direita. Sanderson, do PL, teve 30,11% dos votos válidos. Van Hattem, 30,08%. A diferença entre os dois foi de décimos. Manuela d’Ávila (PSOL) ficou em terceiro, com 17,07%, e Paulo Pimenta (PT), em quarto, com 16,31%.
O resultado colocou o gaúcho numa bancada que, a partir de 2027, terá peso inédito para a direita no Senado. E colocou Van Hattem no lugar onde suas bandeiras mais pesam, uma vez que é no Senado, e só lá, que ministros do Supremo podem ser julgados.
Quem acompanhou Van Hattem na Câmara sabe que ele não é parlamentar de bastidor. Fala alto, ocupa a tribuna, vai às redes. No Senado, Casa de ritmo mais lento e de acordos mais longos, terá de combinar o estilo combativo com a paciência de quem precisa de 54 votos para mudar alguma coisa.
O menino que entregava jornais em Dois Irmãos chega a Brasília com mestrado europeu, três mandatos no currículo e uma convicção que nunca escondeu. A partir de fevereiro, o Senado vai descobrir se o tom que funcionou na Câmara também funciona no plenário mais antigo da República.


Grande Aurelio. Voce é o cara