Há 27 anos, quando a internet ainda engatinhava no Brasil e o jornalismo impresso reinava absoluto nas bancas, um jornalista decidiu trocar a segurança de uma grande redação pela incerteza de um sonho. Depois de anos na sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo, José Seabra fez uma escolha que muitos considerariam ousadia e outros, simplesmente, teimosia, ao criar seu próprio portal de notícias. Foi assim que em 19 de junho de 1999, nasceu Notibras, com uma proposta que atravessaria gerações, governos, crises econômicas e transformações tecnológicas. A orientação para a equipe, então pequena, era informar, interpretar e, sobretudo, respeitar o leitor.
Não foi uma decisão tomada ao sabor das conveniências. Foi uma opção de vida. Porque jornalismo, quando praticado com seriedade, não é uma profissão que se veste pela manhã e se pendura no cabide ao anoitecer. É uma espécie de segunda pele, uma vocação que cobra independência, exige coragem e, não raramente, apresenta uma conta salgada a quem se recusa a negociar a própria consciência.
O tempo passou e com ele governadores chegaram e partiram, presidentes subiram e desceram a rampa do Palácio do Planalto, ministros trocaram de cadeiras, partidos mudaram de discurso, aliados se transformaram em adversários e antigos inimigos descobriram, entre abraços e apertos de mãos, inesperadas afinidades. Mas Notibras permaneceu, principalmente porque nunca confundiu jornalismo com relações públicas e tampouco aceitou transformar sua redação em extensão de gabinetes oficiais, comitês eleitorais ou escritórios empresariais.
Nossos mestres nos ensinaram que notícia não é favor, informação não é moeda de troca e a consciência de um jornalista não pode ter etiqueta de preço. E essa lição está estampada na parede de nossa redação.
Mais recentemente, tomamos emprestada uma velha expressão associada à Folha de S.Paulo para definir, com a simplicidade das verdades que dispensam rodeios, a nossa relação com o público. Para ser curta e grossa, vou direto ao ponto, para enfatizar que Notibras só tem o rabo preso com o leitor. É com ele que assumimos compromissos e é a ele que devemos explicações. É por respeito a ele que não aceitamos pressões para esconder fatos, fabricar virtudes ou transformar defeitos em qualidades por conveniência de quem quer que seja.
O jornalismo não é uma atividade sacerdotal, e os jornalistas não são santos. Erramos, como erram todos os profissionais. A diferença está na disposição de reconhecer equívocos, corrigi-los e jamais permitir que interesses estranhos à notícia determinem aquilo que será publicado.
Também não confundimos independência com neutralidade artificial. A questão é que Notibras interpreta a notícia. e isso está no nosso DNA. Interpretar significa contextualizar acontecimentos, examinar contradições, confrontar versões e oferecer ao leitor elementos para compreender o que existe além das declarações oficiais.
A interpretação, porém, não autoriza a invenção, como a opinião não substitui o fato e a liberdade editorial não concede licença para transformar suspeitas em sentenças. Nosso entendimento é de que uma coisa é ter posição editorial; outra, absolutamente diferente, é ter dono. E Notibras tem história, princípios e leitores, não uma coleira.
Ao longo desses 27 anos, aprendemos que a independência incomoda a quem acredita que publicidade compra silêncio, a quem imagina que proximidade pessoal assegura blindagem, e, principalmente, aqueles que confundem o legítimo direito de resposta com a pretensão de ditar manchetes, escolher adjetivos e determinar o que deve ou não chegar ao conhecimento da sociedade.
O jornalismo feito por Notibras não funciona assim. É sabido que publicidade é uma relação comercial legítima, necessária à sobrevivência de qualquer empresa jornalística, como também entendemos que o anunciante compra espaço publicitário, jamais a consciência da redação. Essa é uma fronteira que não pode ser atravessada.
Essa distinção precisa ser repetida, sobretudo em tempos de redes sociais, notícias fabricadas, campanhas de desinformação e personagens que se apresentam como jornalistas quando, na realidade, apenas reproduzem interesses de seus patrocinadores.
Jornalismo sério custa dinheiro, exige profissionais, experiência, apuração, estrutura e responsabilidade. O que não se admite é que a necessidade de financiamento se transforme em autorização para vender a verdade em prestações.
Notibras nasceu com a disposição de fazer diferente. Reuniu, ao longo da caminhada, profissionais experientes, muitos deles veteranos de redações que aprenderam a profissão quando uma informação precisava ser confirmada antes de ganhar as ruas. É gente que sabe que uma palavra mal colocada pode destruir reputações e que uma vírgula, dependendo de onde apareça, modifica o sentido de uma frase inteira.
Isso nos permitiu criar uma imagem aparentemente pequena para resumir um princípio tão grande. Ninguém paga para tirar ou acrescentar uma vírgula em Notibras. Não se trata de figura de retórica, mas de uma declaração de independência.
Se uma vírgula precisa sair, que saia por exigência da gramática, da clareza ou da verdade factual. Se precisa entrar, que entre pelas mesmas razões, e nunca porque alguém ofereceu dinheiro, prometeu vantagens, insinuou represálias ou resolveu usar o peso de um cargo para interferir no trabalho jornalístico.
A história da imprensa está cheia de exemplos de veículos que nasceram independentes e terminaram prisioneiros de interesses alheios. Também está repleta de profissionais que enfrentaram dificuldades para preservar a credibilidade, algo que não se recupera facilmente depois de perdido. É essa credibilidade que cultivamos desde 1999 sem pretendermos unanimidade. Aliás, desconfiamos dela. O leitor tem todo o direito de discordar de nossas análises, contestar nossas opiniões e questionar nossas conclusões. A isso chamamos do contraditório que faz parte da essência democrática do jornalismo.
O que não pode faltar é a honestidade intelectual de quem escreve e a transparência de quem publica. Aos 27 anos, Notibras não reivindica medalhas de heroísmo nem certificados de pureza, mas apenas o direito de continuar exercendo o jornalismo com a liberdade que inspirou nossa criação. É nesse contexto que seguiremos interpretando a notícia, incomodando quando necessário, reconhecendo erros quando cometidos e preservando a distância indispensável entre a mesa do editor e os interesses daqueles que gostariam de ocupar sua cadeira.
Um jornal pode sobreviver à falta de anúncios, à escassez de recursos e até à hostilidade dos poderosos; contudo, dificilmente sobreviverá à perda da confiança de seus leitores. E, cá pra nós, confiança, ao contrário de publicidade, não se compra por centímetro de coluna, por espaço na tela ou por contrato mensal. Ela conquista-se todos os dias.
Foi assim em 19 de junho de 1999. É assim em outubro de 2026. Notibras tem 27 anos de história, interpreta a notícia e respeita a inteligência de quem nos lê. Dito isso, posso assegurar, sem necessitar pedir o aval do José Seabra, do Armando Cardoso ou do Wenceslau Araújo, que nossa independência não está em negociação. Nem por um ponto, nem por uma vírgula.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras

