Lula tira o dele da reta e tenta esconder Dino atrás do dedinho que não existe

Redação
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João Zisman - Foto Divulgação

A entrevista de Lula com Renata Lo Prete, na noite de quinta-feira, abre uma série de três matérias sobre o desempenho dos candidatos à Presidência na bancada da TV Globo. Hoje, examinamos a participação de Lula; no sábado, será a vez de Flávio Bolsonaro; e, no domingo, vamos confrontar as duas entrevistas, observando propostas, comportamento, contradições e perguntas que ficaram sem resposta. A ideia é encerrar essa análise comparativa antes do debate da Band, no domingo à noite, oferecendo ao leitor elementos para acompanhar o primeiro confronto direto entre os dois candidatos neste segundo turno.

E a primeira coisa que chamou a atenção na entrevista foi o próprio Lula. Havia ali um presidente mais animado, falante, disposto a defender suas posições e, em alguns momentos, até a reconhecer equívocos. Quem acompanhou sua participação na campanha do primeiro turno certamente percebeu a diferença. Lula parecia, até então, não ter acordado inteiramente para a eleição, como se a condição de presidente e o peso de sua trajetória política fossem suficientes para conduzi-lo ao resultado desejado. A urna tratou de avisar que não era bem assim, e a impressão deixada pela entrevista é de que a ficha finalmente caiu.

Esse novo comportamento apareceu quando ele assumiu pessoalmente a responsabilidade pelo desempenho eleitoral insuficiente e pelas dificuldades de avaliação do governo. Não procurou jogar a culpa sobre ministros, auxiliares ou responsáveis pela campanha, o que merece registro. Mas faltou avançar um pouco mais, porque existe uma diferença enorme entre reconhecer que o governo não soube comunicar suas realizações e admitir que talvez algumas delas não tenham correspondido às expectativas da população. Lula reconheceu o problema, mas ainda precisa explicar melhor suas causas.

Também chamou a atenção sua posição sobre a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos, contrariando uma resistência antiga e bastante conhecida dentro do próprio PT. É uma mudança importante de discurso, especialmente quando a segurança pública ocupa tanto espaço nas preocupações dos brasileiros. A dúvida é saber até onde vai essa disposição de rever posições e como ela seria transformada em proposta concreta, inclusive diante das divergências dentro de seu partido.

Mas foi quando a conversa entrou em assuntos mais delicados que algumas respostas começaram a deixar pontas soltas. O caso do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, é um bom exemplo. Lula contou que chamou Andrei para se explicar sobre sua participação em evento relacionado ao empresário Daniel Vorcaro, em Londres, e afirmou que a justificativa apresentada não o convenceu. Ao mesmo tempo, fez questão de elogiar o trabalho desenvolvido pelo diretor-geral e deixou em aberto sua permanência no cargo.

Ora, aí temos um problema. Se o presidente chama um subordinado para explicar uma conduta que considera inadequada e sai da conversa sem estar convencido, seria perfeitamente razoável esperar alguma consequência administrativa, inclusive a substituição por outro profissional da Polícia Federal. Não se trata de condenar Andrei antecipadamente, muito menos de desprezar os resultados de seu trabalho, mas de uma questão de confiança entre quem nomeia e quem exerce uma função dessa importância. E há outro detalhe: Andrei não foi a única autoridade presente naquele ambiente. Outros integrantes da estrutura pública também participaram do evento, mas ficou faltando esclarecer se foram chamados a dar explicações e se o mesmo rigor seria aplicado a todos.

Com o Supremo Tribunal Federal, Lula adotou uma postura mais contundente, reconhecendo a gravidade da crise que atinge a Corte e defendendo mudanças nos critérios de escolha e permanência dos ministros, além de restrições a situações que possam produzir conflitos de interesses. Falou de festas e orgias relacionadas a Daniel Vorcaro, condenou práticas de enriquecimento e reconheceu o desgaste que contamina a imagem do tribunal. Chegou a citar nominalmente Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques ao defender que todas as suspeitas fossem investigadas.

A firmeza, entretanto, diminuiu quando Renata Lo Prete perguntou sobre Flávio Dino, que havia pedido vista e interrompido uma sessão relacionada ao caso de Alexandre de Moraes, depois que surgiu a proposta de examinar conjuntamente a situação envolvendo André Mendonça. Lula justificou a atitude dizendo que Dino pretendia permitir a análise dos dois casos e lembrou que pedir vista é uma prerrogativa dos magistrados. Mas não esclareceu suficientemente a necessidade de interromper aquela decisão. Foi uma resposta bem mais cuidadosa do que as anteriores, especialmente por envolver um ex-ministro de seu governo, indicado por ele ao Supremo. Ficou evidente a diferença entre cobrar explicações sobre a conduta de integrantes da Corte e examinar uma decisão específica de alguém politicamente próximo.

Na economia e nas políticas sociais, outras dúvidas sobreviveram à conversa. Lula defendeu iniciativas de forte apelo popular, mas não esclareceu suficientemente como pretende acomodar novas despesas diante das dificuldades fiscais. Também causou estranheza sua afirmação de que desconhecia a ausência de reajustes no Bolsa Família durante o próprio mandato. É compreensível que um presidente não acompanhe pessoalmente todos os detalhes da administração, mas estamos falando de um dos programas mais identificados com sua trajetória política.

Quanto a Renata Lo Prete, sua condução foi extremamente profissional. Fez perguntas pertinentes, abordou assuntos desconfortáveis e manteve uma conversa firme, sem transformar a entrevista numa disputa com o entrevistado. Foi uma diferença perceptível em relação ao ambiente mais tenso das sabatinas anteriores, com César Tralli e Renata Vasconcellos. Algumas respostas mereciam insistência maior, é verdade, mas ficou evidente que é possível cobrar explicações sem fazer do confronto um espetáculo.

No conjunto, o Lula que apareceu na quinta-feira deu sinais de ter entendido que o segundo turno exige mais do que repetir realizações, atacar o adversário ou confiar na própria biografia. Mostrou entusiasmo, assumiu responsabilidades e apresentou posições que merecem ser examinadas com atenção. Ao mesmo tempo, deixou questões importantes sem resposta, particularmente quando as perguntas envolviam decisões de sua própria administração ou pessoas com quem mantém relações políticas e de confiança.

Essa é uma primeira leitura, que ganha outra dimensão quando confrontada com a entrevista do adversário. Afinal, existe uma diferença considerável entre responder às perguntas de uma jornalista, por mais exigentes que sejam, e sustentar essas mesmas respostas diante de alguém disposto a contestá-las. E será interessante observar, no debate da Band, se aquilo que ficou sem explicação nas entrevistas individuais encontrará respostas quando os dois estiverem frente a frente.

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