Poucas togas ficarão limpas se Congresso decidir lavar roupa suja do Supremo

Redação
Redação
4 minutos de leitura
Arimathéia Martins - Foto Valter Campanato

Com a imagem atolada na areia movediça, o secular Supremo Tribunal Federal e seus ministros são justamente acusados de terem contaminado o primeiro turno da eleição presidencial. Ainda por concluir, o segundo segue na mesma escandalosa direção. Cunhado para descrever o excessivo protagonismo do STF e agora da Corte Eleitoral na condução e no arbítrio da política nacional e, ao longo desta semana, na disputa eleitoral, o termo supremocracia define, por dentro e por fora, o tamanho da crise de legitimidade e de institucionalidade das duas casas do Poder Judiciário.

Considerados até bem pouco tempo como bastiões da Constituição e do Código Eleitoral, tanto o STF quanto o TSE chegaram às páginas policiais. Alguns de seus eminentes membros andam às voltas com denúncias e investigações internas, incluindo desgastes envolvendo os ministros Alexandre de Moraes, André Mendonça e Kássio Nunes Marques como beneficiários das mordomias financeiras, etílicas e sexuais do capo Daniel Vorcaro, o irmãozinho de nove entre dez autoridades da Esplanada dos Ministérios e da Praça dos Três Poderes.

No centro da desconfiança generalizada, as decisões dadas e revogadas antes mesmo de sua vigência e o poder monocrático e de governança direta pelo gabinete dos ministros colocaram as excelências de toga na alça de mira dos senhores dos anéis, os donos dos votos. Aliás, mesmo com a posse marcada somente para fevereiro de 2027, os senadores eleitos e os que ficarão desta legislatura já começaram a debater reformas estruturais no STF.

Entre as mudanças, os senadores, únicos com competência legal para sabatinar, aprovar, processar e jubilar ministros da Corte Suprema, pensam em limitar o mandato dos togados e rever a soberba do poder da instituição, particularmente sobre a tragédia do amontoado de decisões monocráticas. A erosão que começou pelas beiradas e atingiu em cheio a alma do Supremo Tribunal já chegou ao Tribunal Eleitoral, cuja disputa pelo poder é tão evidente como as vistas grossas e os ouvidos moucos da mídia camarada.

A permanecer a desmoralização do STF e do TSE, tudo indica que o cabo e o soldado sugeridos pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro precisarão de pouco ou nenhum esforço para fechar as duas casas superiores de justiça. Como cidadão e jurisdicionado, meu temor é pelo que está por vir. Considerando o ódio encardido e encubado de muitos deputados e senadores contra determinados ministros do STF, a dúvida fica por conta da preservação do espaço físico do Tribunal?

Será que as excelências de um lado da praça respeitarão pelo menos os livros, os processos e as togas das eminências do outro lado. Pelo sim, pelo não, é bom que o povo enxaguado e engomado com as tintas nada neutras e sóbrias do conservadorismo tenha cautela no momento da caça às bruxas. Insistir desmedidamente em lavar com sangue a honra dos conservadores e extremistas cassados e presos pelo STF e TSE é uma faca com duas lâminas. Mantida essa tendência, poucas togas se livrarão das manchas. Talvez nenhuma.

Compartilhar
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *