Bruno, imperador da confraria onde seis pedras valem mais que uma coroa

Redação
Redação
14 minutos de leitura
José Seabra - Foto produção de Otávia Kilvia

Embora majoritariamente presentes à mesa, as mulheres não são o tema desta terça-feira, 19. Mesmo porque, se nelas não se deve bater sequer com uma flor, muito menos merecem apanhar em uma partida de dominó. E, convenhamos, perder para uma dama pode até ferir o orgulho masculino, mas jamais será motivo para pedir intervenção da Organização das Nações Unidas.

Hoje, portanto, deixo Afrodite descansando no Olimpo e volto os olhos para uma confraria masculina que, entre pedras, gargalhadas e pequenas conspirações, transforma o cotidiano da 205, em Águas Claras, numa espécie de assembleia permanente da felicidade.

O protagonista é Bruno Gliosci, imortalizado em primeiro plano na imagem produzida por Otávia Kilvia. E não poderia ser diferente. Se a Academia Sueca resolvesse criar o Prêmio Nobel da Confraternização, Bruno seria candidato único, eleito por aclamação, sem segundo turno, urna eletrônica ou necessidade de recontagem.

Presidente do Clube do Dominó, ele possui uma habilidade que faria inveja aos engenheiros de redes da tecnologia da informação. Conecta pessoas, distribui afetos, eliminando interferências e restaurando conexões perdidas. Com isso, mantém funcionando, sem necessidade de senha, a mais sofisticada rede social que conheço, onde as pessoas se olham nos olhos.

Bruno não preside. Harmoniza sem governar, simplesmente agregando. Também não cabe a ele distribuir ordens, mas oportunidades para que cada um encontre, entre uma carroça e uma buchuda, o prazer de pertencer a alguma coisa maior que a própria solidão.

Certa vez, num diálogo que minha imaginação se permite inventar, perguntei:

— Bruno, qual é o segredo para manter reunida uma coleção tão heterogênea de criaturas?

Ele ajeitou as pedras sobre a mesa, sorriu como um diplomata suíço diante de uma crise internacional e respondeu:

— Meu caro Seabra, o segredo é simples. Aqui ninguém precisa pensar igual. Basta respeitar o direito do outro de jogar errado.

A resposta, embora fictícia, traduz a essência do personagem. Porque, se Bruno é o maestro, os demais integrantes formam uma orquestra que mistura Beethoven, Luiz Gonzaga, os Beatles e uma bateria de escola de samba em pleno ensaio de Carnaval.

Comecemos por Arnaldo, proprietário de uma cabeleira tão branca que faria inveja aos patriarcas bíblicos. Ele garante, com a convicção de quem testemunhou a abertura do Mar Vermelho, que a culpa é dos netos.

— Esses meninos esperam que eu cochile no sofá, passam Superbonder nos meus cabelos e depois jogam talco por cima.

— E você nunca percebe?, pergunto.

— Só quando acordo e descubro que envelheci mais vinte anos.

Não muito distante está Aurélio, enxadrista de reconhecidas habilidades, mas que eventualmente troca a geometria do tabuleiro pela fantasia das monarquias europeias. Basta enxergar uma quadra verde para imaginar as esmeraldas incrustadas na coroa de alguma rainha.

— Xeque-mate! — anuncia um adversário.

— Impossível! Eu estava protegendo a rainha!

— Pois é, Aurélio. Enquanto você admirava as joias da majestade, levaram seu rei para o cadafalso.

Djalma, meu eterno cunhado Jajau, merece capítulo próprio. Percorre mais de vinte quilômetros para chegar à confraria, usando óculos que parecem retirados do periscópio de um submarino nuclear.

— Jajau, você consegue enxergar as pedras daqui?

— Consigo, sim. O problema é que, com estes óculos, também enxergo as que ainda não foram fabricadas.

Sua dedicação demonstra que amizade verdadeira não se mede em quilômetros, mas na disposição de atravessá-los.

Eli, por sua vez, trata as pedras como se fossem sapatinhos de cristal destinados aos pés de princesas encantadas. Há tanta delicadeza em seus movimentos que a mesa parece transformar-se numa passarela de alta-costura.

— Eli, jogue logo essa pedra!

— Calma, querido. Elegância não combina com precipitação.

Se Cinderela frequentasse o clube, certamente pediria a ele que escolhesse seu próximo par de sapatos.

Eugênio é outro fenômeno da mitologia contemporânea. Suspeito que Baco tenha decidido aposentá-lo compulsoriamente de alguma vinícola celestial para nomeá-lo seu representante entre os mortais.

— Eugênio, a vida é curta, observo.

— Justamente por isso, Seabra, não devemos desperdiçá-la bebendo água sem necessidade.

A frase, evidentemente imaginária, poderia ser gravada numa ânfora encontrada nas ruínas de Pompeia.

Igor surge sempre com a pressa dos homens que carregam um segredo doméstico.

— Hoje só posso jogar uma partida. Disse à minha mulher que ia à farmácia comprar um desodorante mais aromático.

Duas horas depois, alguém pergunta:

— Igor, e o desodorante?

— Estou esperando o farmacêutico terminar uma partida.

Bruno, com a serenidade de um monge budista, apenas recomenda que ninguém telefone para a esposa do rapaz.

Jáder, paraense de origem e vascaíno por adoção, realizou uma façanha que nem os navegadores portugueses ousariam tentar, ao trocou o Remo pelo Vasco e as águas do Rio Guamá pelas do Lago Paranoá.

— Jáder, abandonar o Remo não é uma contradição para quem veio de uma terra cercada de rios?

— Contradição seria continuar remando e nunca chegar a lugar nenhum, observa, sem tirar os olhos da mesa.

A resposta provoca gargalhadas, embora os torcedores cruz-maltinos saibam que, dependendo da temporada, também é possível navegar perigosamente perto do naufrágio.

Léo parece ter sido educado simultaneamente por aristocratas britânicos e monges tibetanos. Sua elegância é tão natural que, mesmo quando perde, dá a impressão de estar oferecendo chá à rainha Elizabeth.

— Léo, você acaba de levar uma surra!

— Meu estimado amigo, prefiro interpretar o resultado como uma oportunidade de crescimento espiritual.

Já Leozão poderia ter comandado uma das divisões de cavalaria de Gengis Khan. Seu cavanhaque, que desce em direção ao tórax, parece carregar mapas secretos das conquistas mongóis.

— Leozão, esse cavanhaque é barba ou corda de escalada?

— Depende. Se eu perder a partida, posso usá-lo para sair daqui sem ser visto.

Luciano, por sua vez, é uma espécie de Saci-Pererê geneticamente modificado pelos deuses da capoeira. Ao contrário do personagem folclórico, que salta numa perna só, nosso herói prefere desafiar Newton de ponta-cabeça, equilibrando o corpo com a mão esquerda sobre o próprio cachimbo. É uma façanha que mistura as travessuras de Monteiro Lobato com as acrobacias dos mestres de Angola.

— Luciano, você joga dominó ou capoeira?, pergunto, intrigado.

— Os dois, Seabra. No dominó, dou uma rasteira no adversário. Na capoeira, bato uma carroça.

— E esse cachimbo aguenta seu peso?

— Aguenta, sim. O problema é quando alguém pede fogo e eu perco o equilíbrio.

Se o Saci original habitava redemoinhos, Luciano criou um furacão particular na confraria. Quando não está contando pontos, parece pronto para executar uma meia-lua de compasso, transformando o seis-duplo numa arma secreta. Suspeito que, se Mestre Bimba ressuscitasse e aparecesse na 205, pediria imediatamente uma revanche. Não necessariamente na capoeira, e sim no dominó, onde Luciano também sabe gingar.

Tassus é um gigante com aparência de urso siberiano e alma de panda. Sua presença sugere que poderia derrubar uma muralha com um espirro, mas sua delicadeza indica que pediria desculpas aos tijolos.

— Tassus, você nunca fica nervoso?

— Fico, sim. Mas passa quando lembro que até os ursos precisam de carinho.

Thiago representa a tranquilidade que todos desejamos encontrar nas ruas de Brasília. Homem ligado à segurança, carrega consigo a serenidade de quem sabe que a ordem não precisa andar de mãos dadas com a arrogância.

— Thiago, se alguém roubar uma pedra, você prende?

— Primeiro investigo. Depois descubro se foi furto ou apenas incompetência do adversário.

Thiagão, por outro lado, parece ter sido construído por um arquiteto celestial que exagerou nas medidas. Gigante de corpo e habitante permanente de um berço imaginário, conversa com as estrelas como se fossem vizinhas de condomínio.

— Thiagão, você está olhando para onde?

— Para o céu. Estou tentando descobrir se a próxima pedra vem de Marte.

— Então sente, porque até ela chegar a partida já terminou.

Wilson carrega sangue italiano e o talento gastronômico de quem poderia fazer os próprios deuses abandonarem o néctar para saborear uma pizza napolitana.

Imagino que, se Júlio César frequentasse a confraria, entraria anunciando:

— Veni, vidi, vici!

Wilson responderia:

— Primeiro coma uma margherita. Depois pense em conquistar a Gália.

E finalmente chegamos a Zé Carlos, o Nômade, personagem cuja genealogia mitológica ainda desafia os pesquisadores do Vaticano e os arqueólogos de Atenas.

Ele se apresenta como descendente direto de alguma divindade que teria esquecido a própria certidão de nascimento no Monte Olimpo. Seu irmão siamês, por razões que escapam à ciência, dispensa-lhe o tratamento reservado aos tutores de animais domésticos.

— Zé Carlos, você é um deus ou um pet?

— Depende de quem está segurando a coleira.

E assim a mesa explode em gargalhadas, enquanto o Nômade, com a dignidade ferida dos imperadores depostos, procura uma pedra capaz de restaurar sua autoridade.

Mas volto a Bruno Gliosci, porque é nele que essa história encontra seu verdadeiro significado.

Imagino o presidente observando a confraria como um maestro diante de uma orquestra indisciplinada. Um reclama da sorte, outro protesta contra uma jogada e um terceiro jura que jamais voltará a sentar-se com determinado parceiro. Cinco minutos depois, todos estão novamente juntos, como se nada tivesse acontecido.

— Bruno, como você consegue administrar tanta personalidade diferente?, indago.

— Seabra, uma mesa de dominó tem quatro lados, mas a amizade não tem fronteiras.

Eis a filosofia que sustenta o clube. Num mundo em que as pessoas se bloqueiam nas redes sociais por divergências insignificantes, Bruno construiu uma rede em que ninguém precisa cancelar ninguém. Onde a política pode dividir opiniões, mas não destrói amizades, e onde as diferenças de idade, profissão, origem e temperamento deixam de ser obstáculos e se transformam em ingredientes de uma convivência extraordinária.

A grandeza de Bruno não está em ganhar partidas, mas em fazer com que todos queiram voltar para a próxima. Ele compreendeu algo que muitos governantes, diplomatas e filósofos ainda procuram nos livros. É a paz não nasce necessariamente de grandes tratados internacionais, porque pode muito bem começar com quatro cadeiras, uma mesa, vinte e oito pedras e alguém disposto a aproximar pessoas.

Se Alexandre, o Grande, conquistou territórios; se César dominou Roma; e se Napoleão tentou submeter a Europa, Bruno Gliosci escolheu uma conquista infinitamente mais difícil, ao transformar indivíduos diferentes numa comunidade de amigos. E conseguiu sem espada, sem exército e sem derramar uma gota de sangue. Apenas com paciência, respeito, bom humor e a disposição de manter acesa a chama da convivência.

Por isso, quando a última pedra é colocada sobre a mesa e alguém anuncia o encerramento da partida, percebo que o verdadeiro vencedor não é necessariamente quem marcou mais pontos. É Bruno, que fez da confraria uma extensão da própria família. E somos todos nós, que encontramos naquele pequeno território de Águas Claras uma espécie de república independente da amizade. Uma república onde não há oposição nem situação, porque o único partido verdadeiramente organizado é o da alegria.

Quanto ao Nobel da Confraternização, continuo defendendo sua criação. E, se depender do meu voto, Bruno Gliosci receberá a primeira medalha. Minha única exigência é que a cerimônia de entrega aconteça na mesa do dominó. Porque, no fim das contas, há homens que passam pela vida acumulando vitórias, enquanto Bruno prefere acumular amigos. E essa é uma conquista que nem o tempo consegue derrotar.

……….

José Seabra é CEO fundador de Notibras

Compartilhar
1 comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *