Lula chegou ao poder três vezes falando a língua do povo. O operário, o retirante, o homem que sabia o preço do feijão. É uma história verdadeira e comovente. Mas o eleitor tem o direito de olhar para o que acontece depois que as câmeras da campanha se desligam.
Em 2025, só a Presidência da República gastou R$ 55 milhões no cartão corporativo. Onde esse dinheiro foi parar, porém, é segredo: segundo processo no Tribunal de Contas da União, os gastos específicos são sigilosos. O contribuinte paga, mas não pode saber o quê.
Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, confessaram em 2017 ter pago propina a centenas de políticos. Depois da Lava Jato, pareciam carta fora do baralho. No terceiro mandato de Lula, voltaram a ser recebidos no Palácio do Planalto. E não voltaram de mãos vazias.
Em junho de 2024, uma medida provisória assinada pelo governo garantiu que a energia das termelétricas compradas pela Âmbar, a empresa de energia dos Batista, fosse paga por uma conta abastecida pela tarifa de luz de todos os brasileiros. Operadores do setor estimaram o custo para o consumidor entre R$ 2 bilhões e R$ 2,7 bilhões por ano. O governo disse que a medida era necessária para salvar a distribuidora do Amazonas. Quem paga a diferença é você, na conta de luz.
Em 2025, o Itamaraty colocou sob sigilo de cinco anos os telegramas diplomáticos sobre os negócios da JBS nos Estados Unidos. E, quando Lula quis falar com Donald Trump, não usou os canais do Itamaraty. Usou o celular de Joesley Batista, durante uma visita do empresário ao Palácio da Alvorada.
Em julho de 2024, Lula foi a público defender: “Precisamos colocar a carne na cesta básica.” A carne entrou, com imposto zero. Para o consumidor, é uma boa notícia. Para a maior processadora de carne do mundo, também. E a JBS é dos irmãos Batista.
Há nomes que a política brasileira insiste em reapresentar. Fernando Bittar é um deles. Foi ele quem, em 2010, comprou no papel o sítio de Atibaia, frequentado pela família de Lula e reformado, segundo a Lava Jato, com dinheiro de empreiteiras investigadas. Na época, uma perícia da Polícia Federal concluiu que os recursos da compra e da reforma não eram compatíveis com a renda declarada de Bittar. A condenação de Lula no caso foi anulada pelo Supremo em 2021, por questão de competência, e os fatos nunca foram julgados no mérito.
Dezesseis anos depois, Bittar está de volta. Em agosto, a Polícia Federal passou a investigar uma possível “sociedade oculta” entre ele, Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger, montada para facilitar negócios dentro do governo. Uma das frentes é a tentativa de vender canabidiol ao Ministério da Saúde. As defesas negam irregularidades.
Roberta Luchsinger é a mesma que, em 2017, tentou doar R$ 500 mil para ajudar Lula durante a Lava Jato. Segundo a PF, pagou contas pessoais do então chefe de gabinete do presidente e se referia a Lulinha como “sócio”. Agora mudou de lado. No último sábado, disse à CNN Brasil que quer fazer delação premiada: “Não vou poupar filho de presidente, ninguém.” Chamou o presidente de “um grande mau caráter, um grande mentiroso e um grande covarde”.
No debate do dia seguinte, Lula respondeu: “Ela é uma questão da Polícia Federal que vai investigar.” A ex-aliada virou problema de polícia.
A delação ainda não existe, e Luchsinger não apresentou provas contra Lula. Mas o roteiro é conhecido: os amigos de ontem viram os delatores de amanhã. E quem esteve perto demais do poder costuma saber onde estão guardadas as chaves.
Há ainda quem conta tudo isso ao país. Entre janeiro de 2023 e junho de 2026, o Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões em publicidade da Secretaria de Comunicação da Presidência. Foi o maior valor entre todos os grupos de mídia, mais que o dobro do segundo colocado. Não se trata de acusar ninguém de vender a cobertura. Mas o eleitor pode perguntar se é possível olhar com a mesma distância para quem paga a maior conta de publicidade do país.
Nenhuma dessas decisões tem ilegalidade comprovada. Todas passaram por canais formais. Mas, quando o mesmo grupo empresarial aparece repetidas vezes do lado vencedor, os velhos sócios voltam a frequentar as investigações e a maior emissora do país é também a maior beneficiária da verba oficial, o eleitor tem o direito de perguntar a quem o governo serve primeiro.
Lula fala ao povo com a voz de quem conhece a fome. Mas a mesa do poder tem outros convidados: donos de frigorífico, velhos sócios do filho, lobistas, emissoras bem pagas. E a conta, sigilosa ou não, chega sempre para o mesmo lugar: o bolso de quem trabalha.


O Brasil não é para amadores. brazil zil zil…