Governo se fecha em copas com dinheiro de propaganda que ninguém pode ver

Redação
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Aurélio Zanotti - Foto de Arquivo

Todo brasileiro sabe quanto paga de conta de luz, de gasolina, de tarifa bancária. O que nenhum brasileiro sabe é quanto do dinheiro das empresas estatais vai parar em cada emissora de televisão, rádio, jornal ou rede social. E não sabe porque ninguém conta.

A parte visível da conta é a da Secretaria de Comunicação e dos ministérios, que ainda divulgam quanto pagam a cada veículo. E ela mostra uma mudança clara.

No governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, as grandes emissoras recebiam valores próximos. A Record ficou com cerca de R$ 200 milhões, a Globo com cerca de R$ 189 milhões e o SBT com R$ 169 milhões. Houve uma exceção reveladora: em 2022, ano em que buscava a reeleição, o governo aumentou em 75% a verba destinada à Globo no primeiro semestre.

No governo Lula, a distribuição mudou de patamar. Entre janeiro de 2023 e junho de 2026, só a Secom da Presidência pagou R$ 267 milhões ao Grupo Globo, mais que o dobro dos R$ 122 milhões da Record. Em 2025, somando Secom e ministérios, a Globo recebeu R$ 149 milhões, a Record R$ 80 milhões e o SBT R$ 46 milhões. Google e Meta, juntos, ficaram com mais de R$ 120 milhões, à frente de todas as emissoras, exceto a Globo.

Os dois governos usaram a verba oficial com olho na política. O atual fez da Globo a grande beneficiária.

Segredo da verba das estatais
Essa, porém, é a parte menor da conta. Até 2016, havia um registro detalhado de cada real gasto pelo governo federal com publicidade: quem pagou, por meio de qual agência e para qual veículo. Naquele ano, o total foi de cerca de R$ 1,5 bilhão, e as estatais responderam por 71% desse valor.

Em 2017, o instituto que mantinha o registro deixou de funcionar e nunca foi substituído. Desde então, Petrobras, Caixa, Banco do Brasil, Correios e BNDES publicam apenas totais, sem dizer quem recebeu. O silêncio atravessou três governos: Temer, Bolsonaro e Lula. Nenhum deles resolveu.

E os totais assustam. Somando ministérios e estatais, o governo atual gasta em média R$ 2 bilhões por ano com propaganda, 15% a mais que o anterior. A Petrobras aumentou seus gastos em 79%. As seis maiores estatais saíram de R$ 351 milhões em 2023 para R$ 977 milhões em 2024. Os Correios, em uma das piores crises financeiras de sua história, passaram de cerca de R$ 300 mil para R$ 33,8 milhões.

Sabemos que a Globo recebeu R$ 267 milhões da Secom. O que recebeu da Petrobras, da Caixa e do Banco do Brasil é segredo. O mesmo vale para a Record, o SBT, a Band, o Google e a Meta. Estima-se que mais de R$ 1 bilhão por ano em publicidade federal tenha destino desconhecido para o cidadão.

Público é o que pertence a todos
O argumento de sempre é que as estatais são empresas e precisam competir no mercado. Mas uma empresa cujo maior acionista é o povo brasileiro, cujos dirigentes são indicados por governos e partidos e cujos serviços são essenciais à sociedade não pode se esconder atrás do sigilo comercial.

A Lei das Estatais, de 2016, nasceu para impor governança, transparência e limites às indicações políticas nessas empresas. A Lei de Acesso à Informação garante ao cidadão o direito de saber como o dinheiro público é gasto. A verba de publicidade de uma estatal é dinheiro público.

E há uma razão a mais para exigir clareza: publicidade não é só marketing. É também poder sobre quem informa. Quando o governo distribui verbas a veículos de comunicação sem que ninguém saiba quanto e para quem, abre-se espaço para premiar quem elogia e punir quem critica. Não é preciso provar que isso acontece. Basta saber que o sistema permite.

O que deveria mudar
Não é preciso reinventar nada. Bastaria:

a) obrigar todas as estatais federais a publicar, no Portal da Transparência, o valor pago a cada veículo de comunicação, mês a mês, com a agência responsável;

b) reunir esses dados na mesma base usada pela Secom, para que o cidadão compare tudo num só lugar;
.
c) dar ao Tribunal de Contas da União a atribuição de auditar anualmente a distribuição da verba, com critérios técnicos públicos, como audiência e alcance; e,

d) impedir que a verba publicitária das estatais cresça em ano eleitoral acima da média dos anos anteriores.

São medidas simples, que não dependem de quem está no poder. Servem a qualquer governo e protegem o cidadão de todos eles.

A pergunta que fica
Se não há nada a esconder, por que esconder? A pergunta vale para o governo de hoje e para o de amanhã, seja quem for o eleito no dia 25.

Transparência não deveria ser bandeira de direita nem de esquerda. Deveria ser o mínimo.

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