Carlinha, a cearense do Armazém que vende de tudo, menos a própria alegria

Redação
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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Vou repetir neste espaço um velho mantra sobre pessoas que chegam à vida da gente como quem entra numa loja para comprar uma garrafa de água e acaba levando uma caixa de boas lembranças; já outras aparecem feito brisa nordestina, trazendo no sorriso o calor do Sol e, na alma, a doçura de quem aprendeu cedo que viver é uma arte. Carlinha pertence às duas categorias, porque é uma criatura que, se Deus não tivesse inventado, certamente algum cearense teria criado entre uma história de causos e outra numa mesa de bar em Fortaleza.

Hoje, peço licença a Nonato, seu companheiro, para cometer uma pequena indiscrição afetiva. Não vou falar dele. Pelo menos não como personagem principal. Afinal, até os homens mais importantes precisam compreender que há dias em que o protagonismo pertence exclusivamente às mulheres. E Carlinha, convenhamos, merece não apenas os refletores, mas também uma salva de palmas, dessas que fazem tremer as paredes e acordam os deuses adormecidos do Olimpo.

Gerente do Armazém 205, em Águas Claras, Carlinha comanda uma espécie de fábrica de soluções para as necessidades humanas. Ali se encontra de tudo um pouco, desde o uísque que aquece a conversa à loira gelada que refresca os pensamentos; do petisco que acompanha a primeira rodada de conversa à massa congelada que salva o jantar de quem esqueceu que a fome costuma chegar sem avisar.

É tanta coisa que se alguém pedir um pedaço da Lua, desconfio que Carlinha consultará o estoque antes de responder que está em falta.

O Armazém 205 é uma dessas maravilhas da economia moderna em que o freguês entra procurando uma coisa e descobre que precisa de outras dez. Pertence a Alessandra, empresária que administra uma cadeia de cinco estabelecimentos espalhados pela capital da República. Lá há a capacidade de transformar clientes em amigos, há algo que não se compra por atacado, não se encontra nas prateleiras e muito menos aparece no inventário.

É aí que entra Carlinha. Certa vez presenciei alguém que, por curiosidade, perguntou a Alessandra como ela definiria sua gerente. A resposta veio curta, categórica, sem necessidade de adjetivos suplementares:

— Carlinha é fantástica. E ponto final.

Concluí, com a resposta, que quando uma empresária resume uma funcionária dessa maneira, sem recorrer aos manuais de recursos humanos, é porque encontrou algo mais valioso do que competência profissional. Descobriu, sim, um tesouro recheado de confiança, dedicação e aquele raro talento de fazer as engrenagens girarem sem que ninguém perceba o esforço.

Carlinha nasceu em Fortaleza, terra de Iracema, a virgem dos lábios de mel eternizada por José de Alencar. Há um quarto de século, resolveu conhecer Brasília, onde, imaginava, encontraria apenas monumentos de concreto, avenidas largas e políticos de promessas ainda maiores. Ela, porém, encontrou um destino, porque se veio para conhecer, gostou e ficou.

E assim, sem pedir autorização a Juscelino Kubitschek nem consultar os traços de Oscar Niemeyer, acrescentou à arquitetura da capital : sua própria história, uma construção muito particular. São 25 anos de Brasília, tempo suficiente para trocar a maresia da Praia de Iracema pelo vento seco do Cerrado, aprender que o céu da capital é um oceano de cabeça para baixo e descobrir que, embora não tenha mar, a cidade também oferece suas ondas. Algumas de alegria, outras de dificuldades, mas todas enfrentadas com a coragem de quem carrega o Nordeste no sangue.

Nesse intervalo, a vida lhe deu dois presentes que não cabem em nenhuma embalagem do Armazém: uma filha de 16 anos e um filho de 15. Dois adolescentes que certamente conhecem uma Carlinha diferente daquela que vemos atrás do balcão. A mãe que aconselha, protege, cobra, abraça e, quando necessário, transforma a voz doce em decreto presidencial.

Imagino uma conversa doméstica:

— Mãe, posso chegar mais tarde?

— Pode, desde que mais tarde seja mais cedo.

É o velho método cearense de educar, aperfeiçoado pelas mães brasileiras, de negociar sem abrir mão da autoridade. Mas existe uma segunda Carlinha, que surge quando o relógio se aproxima das 23h40. Não é personagem de novela nem criatura saída das páginas de Kafka. É simplesmente a mulher que, depois de cumprir sua jornada, fecha pontualmente as portas do Armazém e atravessa a fronteira invisível que separa o trabalho da confraternização.

Nesse momento, começa outro expediente. Sem salário, sem cartão de ponto e, sobretudo, sem patrão. É chegada a hora do Clube do Dominó. A confraria da 205, esse pequeno parlamento informal onde as pedras têm mais autoridade do que muitos discursos pronunciados na Praça dos Três Poderes, ganha então uma personagem especial. Carlinha deixa para trás o universo das mercadorias e ingressa no território das amizades, das brincadeiras, das provocações e das gargalhadas.

Ali, ninguém precisa apresentar currículo, bastando apenas ter disposição para conviver. Em ocasiões assim, imagino Zeus, lá do alto do Olimpo, observando a cena e perguntando a Hermes:

— Quem é aquela mulher que chega tão tarde e ainda encontra energia para sorrir?

O mensageiro dos deuses, depois de consultar suas anotações, responderia:

— É Carlinha, senhor. Cearense de nascimento, brasiliense por adoção e especialista em transformar cansaço em alegria.

— E por que não chegou mais cedo?

— Porque estava trabalhando, meu rei. Diferentemente de certos deuses, ela precisa cumprir horário.

Zeus provavelmente ficaria contrariado, embora acabando por reconhecer que, entre os mortais, existem pessoas que merecem lugar de honra no banquete celestial.

Carlinha é uma delas. Não sei se joga dominó com a astúcia de uma Cleópatra, se distribui as pedras com a precisão de uma estrategista romana ou se prefere simplesmente assistir aos confrontos enquanto saboreia a conversa. Isso pouco importa, porque no Clube do Dominó, o verdadeiro campeonato não é decidido apenas pela soma dos pontos, mas pela qualidade dos encontros. E Carlinha, mesmo quando não está disputando uma partida, já chega vencedora.

Nonato, que me perdoe mais uma vez, mas hoje terá de aceitar o papel de coadjuvante. Pode até reclamar, pedir direito de resposta ou recorrer ao tribunal das pedras embaralhadas. Contudo, nada disso adiantará, pois a sentença está proferida, e dela não cabe recurso.

A homenageada é Carlinha, porque há mulheres que não precisam usar coroas para serem rainhas, não necessitam de cetros para exercer autoridade, nem de palácios para demonstrar grandeza. Basta-lhes um balcão, uma rotina de trabalho, a responsabilidade de criar os filhos e a generosidade de repartir o pouco tempo livre com os amigos.

Penso, às vezes, que a felicidade não mora necessariamente nas grandes conquistas. Avalio que pode estar escondida numa conversa despretensiosa, no tilintar dos copos, no barulho seco de uma pedra de dominó batendo sobre a mesa ou naquele sorriso que chega quando a noite já ameaça virar madrugada. Como Carlinha parece conhecer esse segredo, se alguém me perguntasse qual é o produto mais precioso do Armazém 205, eu não apontaria para a prateleira dos uísques importados, para as cervejas estupidamente geladas ou para as iguarias guardadas nos congeladores.

Simplesmente responderia sem hesitar:

— O melhor produto não está à venda. Chama-se Carlinha.

E acrescentaria, para não deixar dúvidas, que Alessandra tem razão. Ela é fantástica.

Quanto a mim, continuarei acreditando que Fortaleza perdeu uma filha para Brasília, mas ganhou uma embaixadora de sua alegria. Uma mulher que atravessou o Brasil para conhecer uma cidade e acabou ajudando a construir, com trabalho, afeto e perseverança, um pequeno universo de amizades.

E quando o relógio marcar 23h40, as portas do Armazém se fecharem e Carlinha aparecer junto à turma do dominó, haverá sempre uma cadeira imaginária reservada para ela no coração de cada amigo. Porque existem estabelecimentos que vendem bebidas, alimentos e conveniências, como existem pessoas que oferecem algo infinitamente mais raro – o carisma humanitário.

Já Carlinha oferece as duas coisas. A primeira tem preço na etiqueta e a segunda não tem preço no mundo. E, se me permitem uma última licença poética, direi que, naquela esquina de Águas Claras, o Armazém 205 fecha às 23h40. Mas o coração de Carlinha permanece aberto 24 horas por dia.

……….

José Seabra é CEO fundador de Notibras

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