Dia dos Santos é para lembrar ida ao Purgatório de quem vive de mesmices

Redação
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Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Imagens/IA

De volta à normalidade, falemos de coisas mais sérias do que a política brasileira. Conforme os acostumados com armários e muros, chorar não é coisa de homem. Como tenho ouvidos moucos para aqueles que desconfiam de si mesmos, não desperdiço mais meu precioso tempo discutindo como um homem deveria ser. Simplesmente assumo que sou um. Como homem moderno, me incluo na lista daqueles cuja maior qualidade é contar, com bom humor e doses exageradas de realismo, aventuras que nunca viveram.

Do tipo que acha que até um pé na bunda nos empurra para frente, choro porque faz bem para o coração e para a alma. Quem pensa de forma contrária é enrustido, nunca levou um chute na nuca inferior, na modalidade pontapé que estilhaça entre a Faixa de Gaza e o Estreito de Ormuz, e jamais foi examinado por um urologista com um dedo médio da mão direita do tamanho de uma caixinha de Bis ou, às vezes, nos moldes de um salsichão da Sadia. Sem muitas delongas, essas são dores que, naturalmente, fazem as lágrimas correr na direção das ventas só de imaginar a reconstituição dos fatos.

Aprendi com meu avô, o sábio português Aristarco Pederneira, que o homem que é homem chora quando a mulher que ele ama vai embora, quando o chifre aflora, quando a hemorroida vira catapora e, principalmente, quando, logo após o Parkinson, o urologista que ele venera se aposenta e vira abóbora. É aí que a gente tem certeza de que não deve confiar em homem que diz que não sofre e não chora.

Meu amigo de infância Aladim era um desses. Chorou de soluçar no dia em que a mulher o abandonou. Até aí nada de anormal. O problema é que, além das lâmpadas, a desalmada levou tudo, deixando o pobre coitado só com o tapete. É verdade que o homem costuma ser igual a um relógio: depois do primeiro defeito nunca mais anda direito. Também é verdade que o amor é cego e que o chifre tem GPS. Descobri isso ao perceber que, naturalmente, ele prefere a testa masculina. Daí o alto índice de duplas sertanejas formadas por homens.

Como já disse aqui mesmo em Notibras, chifre é apenas um detalhe. Importante é que sejamos obedientes, parcimoniosos e convencidos de que somos amados até o último gole. Acredito que a obediência cega, surda e muda às mulheres gerou o merecido Dia de Todos os Santos, o nosso dia. Celebração cristã dedicada à honra de todos os santos e mártires, a data foi sugerida por um de nossos canonizados durante uma reunião, ainda em vida, com o camarada papa Francisco, a quem requereu um dia especial para os homens, tidos e havidos como os maiores sofredores do planeta Terra.

É provável que nem todos os companheiros de labutação se façam merecedores de tal honraria. Talvez fiquem de fora aqueles cujas mulheres têm certeza de onde eles estão. Antes que perguntem, respondo que eles “vivem” nos chamados campos santos, isto é, nos cemitérios. Como tenho certeza de que só tem chifres quem não come direito, acho que faço jus à distinção. Todavia, não posso ser hipócrita a ponto de não reconhecer que, por trás de uma mulher desorientada e desatinada, há um homem que a deixou assim. São os do tipo DVD, ou seja, deitam, viram e dormem.

Não são muitos, mas estão entre nós. Para justificar o Dia de Todos os Santos, a maioria se vira nos trinta para não perder o diploma. Dessa extensa lista fazem parte os que nunca esquecem do aniversário de casamento e, sobretudo, os que têm capacidade de confessar que erraram. Como sei que a vida é curta e ainda tenho dentes, sorrio até de chifres pontudos, aqueles que já deram a volta ao mundo. Embora muitas mulheres discordem, hoje é Dia de Todos os Santos. É dia do homem, o tal que adora dar um jeitinho em tudo, principalmente nas desculpas.

Triste é a relação com o Dia de Finados. Somos todos santos, mas, infelizmente, a maioria dos companheiros se adiantou e dobrou o Cabo da Boa Esperança antes do juízo final. Na linguagem popular, eles passaram a usar bonés para fazer sombra para o morto. Uma pena, mas, não sei se me entendem, o domingo, 1, se une à segunda, 2, dia de lembrar os que já estão na glória celestial orando pelos maçaricos sem fogo e, por isso, a caminho do purgatório.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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