O segredo das horas silenciosas no novo apê de Helena Scorp

Redação
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José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Helena descobriu, numa dessas madrugadas em que Brasília parece conversar com as estrelas, que existem homens que chegam como tempestades e outros que entram na vida de uma mulher como a brisa atravessa uma cortina de linho. Vêm sem pedir licença ao destino ou anunciar permanência, mas apenas chegando. O visitante, agora tendo por cenário o novo apartamento dela, pertence à segunda espécie.

Desde aquela noite de chuva, quando voltou trazendo pastéis, frutas e o cumprimento de uma promessa aparentemente banal, alguma coisa mudara no apartamento. Não eram os móveis, os livros espalhados sobre a mesa de centro, nem a velha coleção de discos de jazz. Era o silêncio. Antes, Helena o cultivava como quem protege um jardim secreto. Agora, porém, percebia que o silêncio podia ser compartilhado sem perder a beleza.

Isso, claro, assustava a condômina recém-chegada à Quadra 205, em Águas Claras. Não porque tivesse medo de amar. já que ela amara o suficiente para conhecer as armadilhas das grandes declarações. Tinha aprendido, entre despedidas e recomeços, que o amor raramente morre de repente. Descobriu, assim, que primeiro desaparecem os pequenos gestos, depois, os olhares e por último, a vontade de permanecer.

Por isso, quando ele localizou seu novo endereço e apareceu novamente, num sábado de céu avermelhado, encontrou a porta entreaberta.

— Você continua desafiando os ladrões?, perguntou, com aquele sorriso de quem parecia conhecer o mundo e, ao mesmo tempo, não levar o mundo muito a sério.

— Não. Agora estou desafiando as ausências, ela replicou.

Ele não respondeu imediatamente. Aproximou-se da estante, examinou os livros e retirou um volume de poemas. Helena observou seus movimentos. Havia uma elegância discreta naquele homem, uma espécie de serenidade que não se aprende nos salões, mas nas cicatrizes.

— As ausências são perigosas, disse ele, finalmente.

— Mais perigosas são as presenças que não ficam, ouviu em resposta.

A frase permaneceu suspensa entre os dois. Do lado de fora, Brasília acendia suas primeiras luzes. Na vitrola, um saxofone antigo parecia lamentar alguma paixão que não sobrevivera ao fim da Primavera. Helena preparou chá e ele abriu a pequena caixa de sequilhos que trouxera, como se estivesse cumprindo um ritual inventado pelos dois.

Sentaram-se próximos à janela, e foi então que ela percebeu uma tristeza escondida nos olhos do visitante. Não era melancolia passageira, e sim algo antigo que se acomoda na alma e aprende a conviver com a alegria.

— Você nunca me contou por que apareceu naquela primeira noite, disse.

Ele sorriu, mas não com os olhos.

— Talvez porque algumas portas sejam encontradas antes mesmo de sabermos que estamos procurando por elas.

— Isso é resposta de poeta. Estou fazendo uma pergunta de mulher.

Ele baixou a cabeça e durante alguns segundos, o único som veio do saxofone.

— Eu conhecia este apartamento, confessou.

Helena sentiu um frio inesperado.

— Como assim?

— Há muitos anos, antes de você morar aqui, eu vinha visitar uma pessoa. Uma mulher que acreditava que as portas deveriam permanecer abertas para quem tivesse coragem de voltar.

Helena pousou a xícara sobre o pires.

— Você a amava?

— Muito.

— E o que aconteceu?

Ele olhou para a noite, como se procurasse uma resposta nas janelas iluminadas dos edifícios vizinhos.

— Ela morreu antes que eu aprendesse a dizer tudo o que precisava.

Helena não sentiu ciúme; ao contrário, foi tomada por uma ternura quase dolorosa, e compreendeu que aquele homem não carregava apenas lembranças; ele era dono de palavras que haviam perdido o destinatário.

— E voltou para procurar o passado?

— No começo, talvez. Mas encontrei você.

Helena levantou-se e caminhou lentamente até a varanda. O vento movimentava as folhas de uma planta que resistia, havia anos, ao calor e à secura do Planalto Central. Pensou em quantas vezes confundimos o amor com a obrigação de apagar aquilo que veio antes, como se os sentimentos fossem móveis antigos, descartados para abrir espaço aos novos.

Ele se aproximou, mas manteve uma distância respeitosa.

— Não quero ser a sombra de ninguém, disse Helena.

— Nem eu quero que seja.

— Então por que continua voltando?

O homem segurou delicadamente sua mão.

— Porque, pela primeira vez em muito tempo, não estou voltando para algum lugar. Estou chegando.

Helena fechou os olhos.

Havia naquela resposta uma verdade que dispensava explicações. O passado não desaparecera, continuava existindo com seus retratos invisíveis, suas promessas interrompidas e suas pequenas tragédias particulares. Mas já não precisava comandar o presente.

Ela encostou a cabeça no ombro dele, e ficaram assim por algum tempo, contemplando a cidade. Nenhum dos dois perguntou o que aconteceria no dia seguinte. Talvez porque tivessem idade emocional suficiente para compreender que o futuro é um hóspede inconveniente quando convidado cedo demais.

Mais tarde, ele se preparou para sair. Helena acompanhou-o até a entrada e pela primeira vez, não esperou que ele atravessasse a soleira para perguntar:

— Você volta amanhã?

Ele acariciou seu rosto.

— Você quer que eu volte?

— Quero que não precise ir embora.

A resposta pareceu surpreendê-lo mais do que qualquer declaração de amor. O visitante olhou para a porta, depois para Helena, tirou lentamente o casaco e o colocou sobre o encosto de uma cadeira.

— Então acho que podemos ouvir mais um disco.

Helena sorriu. Não houve promessas de eternidade, tampouco juras apaixonadas, dessas que a madrugada costuma desmentir quando chega a manhã. Houve apenas duas pessoas que, depois de tantas viagens interiores, haviam descoberto a rara coragem de permanecer.

O saxofone voltou a tocar. Na mesa, o chá esfriou, os sequilhos ficaram esquecidos, a Lua, indiscreta como todas as luas apaixonadas, espiou pela janela no instante em que Helena recebeu um beijo que não parecia despedida.

Ela lembrou-se, então, daquela frase que guardava como um segredo. “Um momento eterno pode durar trinta segundos”. Nessa noite, porém, descobriu outra possibilidade, como se, às vezes, trinta segundos são suficientes para começar uma eternidade.

E a porta? Ah, essa continuou entreaberta. Não por descuido, nem por medo de perder a liberdade, mas porque Helena finalmente compreendera que uma porta entreaberta não serve apenas para permitir a entrada de alguém, e sim para que o amor, quando encontra abrigo, nunca se sinta prisioneiro. E nessa madrugada, pela primeira vez, ninguém precisou partir.

…..

José Seabra é CEO fundador de Notibras

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