Esta segunda, 2, é dia para escrever sobre uma tragédia brasileira, com trilha de violino e lágrimas de novela das nove.
São três atos e um epílogo, com cenário de hoje sobre os fatos registrados no último dia 25., lembrando que 2030 não demora a chegar.
Ato I – O velório
Dois de novembro. Dia de Finados. Dona Direita, de preto, véu na cabeça e terço na mão, chega ao cemitério carregando uma coroa de flores com a faixa: “Saudades, 25 de outubro. Partiu às 20h26.”
Foi a hora exata. Até as 20h20, ela estava na frente. Tinha feito a mala, escolhido a roupa da posse, ensaiado o discurso no espelho. Às 20h26, chegou o Nordeste, em ônibus fretado de boletins de urna, e levou tudo.
— Eu estava na frente! — ela grita para o túmulo. — Eu estava na frente com 40% apurado!
Ao lado, Seu Centrão, de terno bem cortado, olha o relógio.
— Minha senhora, eu sinto muito. Mas a que horas é a reunião com o governo eleito? É que tenho emenda para empenhar.
Dona Direita desmaia. Ninguém a segura. Seu Centrão já estava no carro.
Ato II – O Zap da família
Dona Direita acorda em casa e pega o celular. São 347 mensagens no grupo “Família Patriota 🇧🇷”.
Tia Neide mandou um áudio de 11 minutos: “Gente, são OITO MILHÕES E MEIO sem biometria! Oito milhões! Repassem!”
Primo Juninho manda um print de um relatório anônimo, de uma conta que diz ser do Anonymous, mas ninguém do Anonymous confirma.
Dona Direita quer acreditar. O coração dela quer acreditar. Mas a filha, que estuda Direito, manda uma mensagem seca:
“Mãe, o voto é secreto. Ninguém sabe em quem o eleitor sem biometria votou. Nem a senhora, nem a Tia Neide, nem o Anonymous. E o próprio autor apagou o relatório.”
Silêncio no grupo. Tia Neide responde com um emoji de cruz e sai.
Mais tarde chega outra: “106 urnas com 100% para o Lula!!!”
A filha de novo: “E 4 com 100% para o Flávio, mãe. Em quase meio milhão de seções. São aldeias, comunidades pequenas. Se a senhora for contar só as que dão razão para a senhora, vai sempre dar a senhora.”
Dona Direita joga o celular no sofá e chora abraçada ao travesseiro com a cara do Flávio.
Ato III – O relógio das cinco
À noite, sozinha, Dona Direita encontra na sala um velho Relógio de parede. Ele fala, com voz grave:
— Eu sou o Relógio das 17h. Há décadas o Código Eleitoral me diz quando a votação termina. No dia 25, uma Toga entrou nesta casa depois das cinco e mexeu nos meus ponteiros. Duas horas a mais. Algumas urnas souberam, outras não. Umas fecharam, outras reabriram.
— Então foi isso! — diz Dona Direita, com os olhos brilhando. — Foi isso que me tirou a eleição!
— Não — responde o Relógio, com a honestidade que só um relógio tem. — Votaram depois das cinco 35 mil pessoas. Você perdeu por 4 milhões e 400 mil. E o seu próprio partido também pediu para me atrasar, lá no Sul, por causa da chuva.
Dona Direita senta no chão.
— Então pra que serve essa história?
O Relógio bate meia-noite.
— Serve para o futuro, minha filha. Ninguém deveria mexer nos meus ponteiros com o jogo em andamento. Nem para você, nem para eles. Você não perdeu por minha causa. Mas a próxima eleição pode ser decidida por mim, se ninguém fizer uma lei dizendo quem pode me tocar.
Epílogo – A caneta
Na manhã seguinte, Dona Direita tira o véu preto. Olha no espelho e lembra que, no mesmo domingo em que perdeu o Planalto, ficou com a maior bancada da Câmara e do Senado.
Guarda o terço, pega uma caneta e escreve na agenda:
“1. Parar de repassar áudio da Tia Neide.
2. Projeto de lei: horário de votação só muda pelo TSE, antes das 17h, com regra igual para todos.
3. Cobrar do TSE a publicação, seção por seção, de quantos votaram sem biometria. Transparência não se pede chorando, se
exige legislando.
4. 2030 começa hoje.”
Fecha a agenda. Lá fora, os sinos de Finados tocam.
Ela sorri pela primeira vez em uma semana.
— Quem morreu foi a eleição. Eu, não.
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Aurélio Zanotti é consultor em gestão e estratégia

