Em mais de meio século de jornalismo, conheci mulheres, ou li algo a respeito, que entram para a história pela força das decisões, e outras, pela habilidade de construir pontes onde antes existiam muralhas. Algumas, ainda, pela capacidade de enxergar o ser humano por trás dos números, das estatísticas e das estruturas de poder. Margaret Thatcher, Indira Gandhi e Madre Teresa de Calcutá representam, cada uma à sua maneira, essas diferentes dimensões da liderança feminina.
São personalidades de trajetórias, convicções e legados profundamente distintos. Enquanto Thatcher governou o Reino Unido com políticas que provocaram profundas transformações e intensas controvérsias, Indira conduziu a Índia em meio a alianças complexas, mas capazes de corrigir graves conflitos institucionais. Já Madre Teresa dedicou sua vida à assistência aos mais pobres, tornando-se referência internacional de caridade e humildade.
É nesse universo de contrastes que se pode construir uma leitura metafórica da trajetória de Celina Leão; não para colocá-la no mesmo patamar histórico dessas mulheres, mas para identificar três qualidades que frequentemente aparecem no debate sobre o exercício do poder, onde se exige firmeza, capacidade de articulação e sensibilidade social.
A primeira referência é Margaret Thatcher, conhecida como a Dama de Ferro. Sua imagem ficou associada à determinação de sustentar decisões mesmo diante de resistências. Para Celina, que presidiu a Câmara Legislativa do Distrito Federal e exerceu mandatos parlamentares antes de chegar ao Palácio do Buriti, a metáfora da firmeza encontra terreno na experiência acumulada em negociações e responsabilidades institucionais.
Celina sabe que governar Brasília obriga a tomada de decisões que nem sempre agradam a todos, porque o orçamento tem limites, as demandas sociais são numerosas e os interesses políticos frequentemente se chocam. A firmeza necessária, entretanto, não deve ser confundida com inflexibilidade. O desafio da governadora será demonstrar que a autoridade pode caminhar ao lado do diálogo, sem transformar divergências em confrontos permanentes.
A segunda referência é Indira Gandhi, primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra da Índia. Sua trajetória revela a importância das alianças na sustentação de um governo, mas também os riscos da concentração de poder. Essa analogia oferece uma reflexão especialmente pertinente ao momento político do Distrito Federal.
Celina inicia a preparação de seu novo mandato diante de uma Câmara Legislativa na qual a base governista aparentemente procura manter a unidade, mesmo conhecendo-se a existência de uma divisão quando se vislumbra a perpetuidade no poder, enquanto a oposição ampliou sua representação e anuncia fiscalização das ações do Executivo. A própria governadora já sinalizou interesse em buscar entendimentos para evitar divisões entre aliados na disputa pela presidência da Casa.
Nesse cenário, a arte de governar não estará apenas em reunir partidos ao redor de uma mesa, mas em transformar acordos políticos em compromissos administrativos, preservando a autonomia das instituições e o direito à divergência. A Leoa sabe, junto com seu staff, que uma coalizão pode assegurar votos, mas somente resultados concretos podem justificar sua existência perante a sociedade.
A terceira referência conduz a uma dimensão diferente. Madre Teresa de Calcutá não comandou governos nem disputou eleições, e mesmo assim seu nome atravessou fronteiras pela dedicação aos vulneráveis. É uma imagem de serviço que pode inspirar qualquer ocupante de cargo público, independentemente de sua orientação política.
Na trajetória de Celina, a atuação em iniciativas voltadas à proteção das mulheres e à inclusão pelo esporte oferece pontos de contato com essa preocupação social. Como deputada federal, coordenou a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, e no Executivo distrital, esteve à frente da área de esporte e lazer, associada a programas destinados a ampliar o acesso da população às atividades esportivas.
Mas a humildade de uma governante não se comprova por discursos ou gestos ocasionais, e sim na disposição de ouvir quem espera por atendimento em um hospital, quem enfrenta horas de deslocamento para trabalhar e quem depende de uma escola pública para oferecer melhores oportunidades aos filhos. É nesse ponto que a metáfora de Madre Teresa adquire sentido administrativo, ao mostrar o poder não como privilégio, mas como instrumento de serviço.
O Governo Celina 2 nasce, portanto, de uma combinação de desafios. Da imagem de Thatcher, pode extrair a importância da decisão responsável; da experiência de Indira, a necessidade de construir alianças sem sacrificar as instituições; e, do exemplo humanitário de Madre Teresa, a lembrança de que nenhuma obra pública tem significado maior do que a melhoria efetiva da vida das pessoas.
A governadora chega a essa etapa depois de dois mandatos como deputada distrital, da presidência da Câmara Legislativa, da passagem pela Câmara dos Deputados, do exercício de funções no Executivo e da conquista de um mandato próprio nas urnas. Sua reeleição, com 57,18% dos votos válidos no segundo turno, abre um período de quatro anos no qual poderá imprimir uma identidade administrativa mais definida.
Brasília, entretanto, não precisa de uma Dama de Ferro, de uma primeira-ministra indiana ou de uma religiosa de Calcutá. Precisa de uma Leoa com garra capaz de responder aos problemas concretos de sua população, respeitando a singularidade de uma capital que reúne o poder nacional e as dificuldades cotidianas de milhões de moradores.
Para analistas políticos, sua gestão não será definida pelas comparações que inspiram este retrato, mas pelo que fizer com a oportunidade recebida. Se Celina conseguir combinar decisões consistentes, alianças transparentes e atenção permanente aos mais vulneráveis, poderá construir um legado que ultrapasse o calendário eleitoral; e se der errado, as metáforas permanecerão apenas como imagens literárias.
Sabe-se, ao longo da história, que a política não consagra governantes por aquilo que prometem ser, e sim o tempo, acompanhado pelo julgamento da sociedade, que revela o significado de suas realizações. É justamente esse o capítulo que Celina Leão começa a escrever, não à sombra de Thatcher, Indira ou Madre Teresa, mas diante da responsabilidade de construir sua própria identidade na história de Brasília.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
**Colaboraram Mari Melo e Bianca Ribeiro

