Onda democrata atropela republicanos e impõe derrota histórica a Trump

Redação
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Antônio Albuquerque - Foto Reprodução/X

As urnas mal haviam sido fechadas nos Estados Unidos quando começou a se desenhar um cenário que Donald Trump certamente preferiria não enfrentar. As eleições legislativas de meio de mandato, realizadas nesta terça-feira, 3, produziram uma onda de vitórias democratas que ultrapassou as previsões dos institutos de pesquisa e ameaça transformar os dois últimos anos do segundo mandato do presidente republicano em um período de confrontos permanentes com o Congresso.

As projeções divulgadas na madrugada desta quarta-feira, 4, pelas principais redes americanas indicam que o Partido Democrata conquistou o controle das duas casas do Congresso, a Câmara dos Representantes e o Senado. A agência Reuters e a Associated Press confirmaram o avanço da oposição, inclusive em estados tradicionalmente dominados pelos republicanos.

O resultado representa muito mais do que uma derrota parlamentar. É uma manifestação de descontentamento de parte expressiva do eleitorado com os rumos da administração Trump, especialmente em relação ao custo de vida, à política econômica e às consequências da guerra contra o Irã.

A dimensão da derrota surpreendeu até mesmo estrategistas democratas. No Texas, um dos principais bastiões conservadores do país, James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton na disputa pelo Senado, tornando-se o primeiro democrata eleito para representar o estado naquela casa em 38 anos. Em Ohio, Sherrod Brown também venceu, enquanto Adam Hamilton conquistou uma cadeira pelo Kansas, onde os democratas não elegiam um senador desde 1932.

As vitórias se estenderam à Carolina do Norte, Carolina do Sul, Iowa e Maine, consolidando uma mudança significativa no mapa político americano. Na disputa pelos governos estaduais, os democratas também avançaram. No Texas, Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott, aliado de Trump, interrompendo sua tentativa de conquistar um quarto mandato.

O recado das urnas foi particularmente contundente porque o próprio Trump havia transformado as eleições legislativas em uma espécie de plebiscito sobre sua administração. Durante a campanha, pediu aos eleitores republicanos que votassem como se seu nome estivesse nas cédulas. A estratégia, destinada a mobilizar a base conservadora, acabou ampliando o caráter nacional da disputa.

As pesquisas de boca de urna ajudam a explicar o fenômeno. Levantamento realizado para grandes veículos de comunicação americanos mostrou que aproximadamente três em cada quatro eleitores estavam insatisfeitos ou irritados com a direção do país. Quase nove em cada dez consideraram o custo de vida um fator importante ou decisivo na escolha de seus candidatos. Cerca de dois terços responsabilizaram Trump pela elevação dos preços.

O presidente, que retornou à Casa Branca em janeiro de 2025 prometendo recuperar o poder de compra dos americanos, passou a enfrentar crescente resistência à sua política de tarifas comerciais e aos custos econômicos do conflito com o Irã. O aumento dos combustíveis, a inflação e a percepção de deterioração das condições de vida enfraqueceram o discurso republicano de prosperidade econômica.

Uma pesquisa ABC News/Washington Post/Ipsos, divulgada antes da votação, já havia identificado aprovação de apenas 37% para Trump, contra 62% de desaprovação. O levantamento antecipava o desgaste que acabaria refletido nas urnas.

A mudança no comando do Congresso abre uma nova fase na política americana. Com maioria na Câmara e no Senado, os democratas poderão ampliar investigações parlamentares, dificultar a aprovação de propostas do Executivo, impor negociações orçamentárias e bloquear indicações presidenciais que dependam da confirmação dos senadores.

Isso não significa, entretanto, que Trump perderá todos os seus instrumentos de poder. A Constituição americana preserva as prerrogativas do presidente, inclusive o direito de veto sobre projetos aprovados pelo Legislativo. A oposição, por sua vez, terá de demonstrar capacidade de apresentar respostas aos problemas econômicos que alimentaram sua vitória.

A expectativa é de que Hakeem Jeffries assuma a presidência da Câmara dos Representantes, tornando-se o primeiro negro a ocupar o cargo. Sua ascensão simbolizaria não apenas a recuperação parlamentar democrata, mas também o surgimento de um novo centro de poder em Washington.

Trump, por enquanto, procura reduzir o significado político da derrota. Segundo relatos da imprensa americana, declarou que aceitará os resultados e estará disposto a trabalhar com os democratas. Ao mesmo tempo, rejeitou a interpretação de que o desempenho republicano represente uma condenação pessoal de sua administração, atribuindo os reveses aos candidatos do partido.

O argumento dificilmente encerrará o debate dentro do Partido Republicano. A perda simultânea das duas casas legislativas deverá provocar questionamentos sobre a estratégia eleitoral, a influência do movimento MAGA e a capacidade de Trump de transferir sua popularidade entre os apoiadores mais fiéis para candidatos que disputam eleições sem sua presença direta nas urnas.

Há ainda uma consequência de maior alcance. As eleições de meio de mandato costumam funcionar como termômetro para a disputa presidencial seguinte. Embora Trump não possa concorrer a um terceiro mandato pela regra constitucional vigente, o desempenho de seu partido em 2026 poderá influenciar decisivamente a escolha dos candidatos e a reorganização das forças políticas para 2028.

O resultado também repercute fora das fronteiras americanas. Um presidente obrigado a negociar com um Congresso controlado pela oposição poderá enfrentar obstáculos adicionais para implementar políticas comerciais, iniciativas de segurança e decisões internacionais que dependam de recursos ou autorização legislativa.

A contagem definitiva dos votos ainda poderá alterar números e margens em disputas específicas, mas as projeções de controle das duas casas já apontam uma mudança profunda na correlação de forças em Washington.

Donald Trump chegou à Presidência pela segunda vez apresentando-se como o homem capaz de restaurar a grandeza americana. Dois anos depois, recebe das urnas um aviso de que parte significativa do país não está satisfeita com os resultados.

A Casa Branca continuará ocupada por um republicano. O Capitólio, porém, passa às mãos da oposição. E, na política americana, quando o presidente perde o Congresso, até mesmo as decisões aparentemente mais simples podem se transformar em longas batalhas.

Trump não foi candidato nesta terça-feira. Mas, ao transformar a eleição em um julgamento de seu governo, acabou colocando o próprio mandato nas urnas. E o veredicto político foi uma derrota de proporções históricas.

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