{"id":3312,"date":"2026-09-12T16:40:07","date_gmt":"2026-09-12T19:40:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=3312"},"modified":"2026-09-12T16:40:07","modified_gmt":"2026-09-12T19:40:07","slug":"devastacao-na-amazonia-pode-quebrar-maquina-de-chuva-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/brasil\/devastacao-na-amazonia-pode-quebrar-maquina-de-chuva-do-mundo\/","title":{"rendered":"Devasta\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia pode quebrar \u201cm\u00e1quina de chuva\u201d do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Uma m\u00e1quina silenciosa trabalha constantemente para que milh\u00f5es de pessoas na Am\u00e9rica do Sul tenham acesso a \u00e1gua, rios e planta\u00e7\u00f5es. Esse mecanismo se chama Amaz\u00f4nia e funciona da seguinte maneira: a umidade vinda do oceano produz chuva sobre a floresta; essa \u00e1gua \u00e9 absorvida do solo pelas \u00e1rvores, e lan\u00e7ada de volta na atmosfera em forma de vapor; o vento, ent\u00e3o, espalha, esse vapor por todo o continente, fazendo chover em diversas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora Julia Valentim Tavares essa \u00e9 a principal infraestrutura h\u00eddrica da Am\u00e9rica do Sul e a maior \u201cm\u00e1quina de chuva\u201d do planeta. Uma \u00e1rvore adulta na Amaz\u00f4nia pode liberar para a atmosfera de 200 a 300 litros de \u00e1gua todos os dias.<\/p>\n<p>\u201cImaginem 400 bilh\u00f5es delas trabalhando juntas todos os dias. Se pud\u00e9ssemos tornar essa umidade poss\u00edvel, ver\u00edamos rios gigantes voando no c\u00e9u. \u00c9 o que n\u00f3s cientistas chamamos de rios voadores.\u201d<\/p>\n<p>Marielos Pe\u00f1aclaros, copresidente do Painel Cient\u00edfico pela Amaz\u00f4nia, entidade que re\u00fane mais de 350 cientistas dedicados a estudar o bioma, destaca que a floresta \u00e9 a coluna vertebral dos ciclos de \u00e1gua, nutrientes e carbono a n\u00edveis local, regional e global.<\/p>\n<p>\u201cEm outras palavras, a Amaz\u00f4nia sustenta a vida, n\u00e3o s\u00f3 na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, mas no planeta como um todo.\u201d<\/p>\n<p>As duas pesquisadoras participaram da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do TEDxAmazonia, no final de agosto, no Equador.<\/p>\n<p><strong>Alerta<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m de frisar a import\u00e2ncia desse sistema h\u00eddrico, as cientistas fizeram um alerta: a devasta\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia j\u00e1 est\u00e1 afetando a \u201cm\u00e1quina de chuva\u201d, e sua \u201cquebra\u201d seria catastr\u00f3fica para todo o planeta.<\/p>\n<p>De acordo com Marielos, atividades como a minera\u00e7\u00e3o e o narcotr\u00e1fico, em conjunto com o desmatamento e as queimadas t\u00eam atingido diretamente a conectividade amaz\u00f4nica, fator central para a conserva\u00e7\u00e3o do bioma.<\/p>\n<p>\u201cA Amaz\u00f4nia \u00e9 um mosaico vivo de ecossistemas terrestres e aqu\u00e1ticos interconectados entre si, que abriga uma grande diversidade de culturas. Essas comunidades t\u00eam um relacionamento profundo e interdependente com os ecossistemas atrav\u00e9s dos seus modos de vida, pr\u00e1ticas de manejo e conhecimento.\u201d<\/p>\n<p>Segundo ela, os efeitos no clima j\u00e1 s\u00e3o mensur\u00e1veis, com evid\u00eancias de que o desmatamento na Amaz\u00f4nia brasileira resulta em menos chuva em regi\u00f5es do Brasil e da Bol\u00edvia. Em regi\u00f5es desmatadas, a temperatura tem aumentado, e as \u00e9pocas de seca est\u00e3o ficando mais intensas e mais cumpridas.<\/p>\n<p>Julia Valentim Tavares tamb\u00e9m est\u00e1 medindo esses efeitos a partir do interior das \u00e1rvores da borda sul da Amaz\u00f4nia, o chamado arco do desmatamento, onde o volume de chuvas j\u00e1 diminuiu e a temperatura aumentou na \u00faltima d\u00e9cada. Ela investiga por quanto tempo essas \u00e1rvores podem resistir \u00e0s secas, antes que suas \u201ccordas\u201d internas sejam danificadas.<\/p>\n<p>\u201cSe o solo tem \u00e1gua, essa corda permanece intacta. Numa esta\u00e7\u00e3o seca, o solo deixa de ter \u00e1gua e essa corda \u00e9 tensionada. A atmosfera puxa para cima, o solo puxa para baixo, at\u00e9 a hora que essa corda se rompe. Se isso acontecer muitas vezes, em v\u00e1rias partes da \u00e1rvore, essa \u00e1rvore come\u00e7a a literalmente morrer de sede.\u201d<\/p>\n<p><strong>Aquecimento global<\/strong><br \/>\nNos \u00faltimos anos, a regi\u00e3o tamb\u00e9m tem sofrido com os efeitos do aquecimento global. Em 2024, a Amaz\u00f4nia enfrentou a pior seca da sua hist\u00f3ria, por consequ\u00eancia do El Nino, fen\u00f4meno natural de aquecimento das \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico, que altera a circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, e tem se tornado mais intenso.<\/p>\n<p>Marielos destaca que 88% da bacia amaz\u00f4nia sentiu os efeitos dessa seca, que tamb\u00e9m interferiu na \u201cm\u00e1quina de chuva\u201d. A capital da Col\u00f4mbia, Bogot\u00e1, localizada na regi\u00e3o dos Andes, sofreu desabastecimento de \u00e1gua. Em Quito, capital do Equador, que tamb\u00e9m est\u00e1 fora da Amaz\u00f4nia, a falta de \u00e1gua levou \u00e0 cortes no fornecimento de energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>\u201cA pergunta que todos dever\u00edamos estar fazendo \u00e9: De onde nasce a \u00e1gua de in\u00fameras cidades latinoamericanas? De onde nasce a \u00e1gua que usamos na agricultura, pecu\u00e1ria, ind\u00fasstria, produ\u00e7\u00e3o de alimentos?\u201d, provocou a copresidente do Painel Cient\u00edfico pela Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>A seca tamb\u00e9m deixou a Amaz\u00f4nia mais vulner\u00e1vel \u00e0s queimadas, que foram recordes naquele ano. Julia Valentim Tavares lembra que a fuma\u00e7a dos inc\u00eandios chegou a se espalhar pelo pa\u00eds e alcan\u00e7ar at\u00e9 a Regi\u00e3o Sudeste.<\/p>\n<p>\u201cEsse fato revelou duas coisas muito importantes. Primeiro: a Amaz\u00f4nia nunca esteve distante, o que acontece na floresta n\u00e3o permanece na floresta. E segundo: milh\u00f5es de pessoas dependem da Amaz\u00f4nia, mas ainda assim n\u00e3o se sentem conectadas com ela.\u201d<\/p>\n<p>A previs\u00e3o de que um super El Ni\u00f1o ocorra este ano alarmou as pesquisadoras. \u201cQuando existem essas secas, a floresta ou tem mortalidade por falha hidr\u00e1ulica, ou para de crescer, somado com os eventos de fogo. Ent\u00e3o, a Amaz\u00f4nia deixa de funcionar como um sumidouro de carbono e passa a ser um emissor, aumentando o aquecimento global\u201d, alerta Julia.<\/p>\n<p>\u201cA gente est\u00e1 esperando que seja t\u00e3o ou mais forte do que em 2024, mas a principal diferen\u00e7a \u00e9 que da outra vez aconteceram coisas que ningu\u00e9m estava esperando. Como um rio poderia secar na Amaz\u00f4nia? Agora, todo mundo est\u00e1 falando sobre isso\u201d, enfatizou Marielos.<\/p>\n<p>De acordo com ela, a solu\u00e7\u00e3o definitiva s\u00f3 ser\u00e1 alcan\u00e7ada com a diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica das emiss\u00f5es de gases do efeito estufa, que depende sobremaneira da substitui\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis por fontes menos poluentes de energia.<\/p>\n<p>\u201cTemos tamb\u00e9m que investir na conectividade. Restaurar as \u00e1reas degradadas, recuperar aquelas que foram desmatadas para produ\u00e7\u00e3o, fazer essa reconex\u00e3o ecol\u00f3gica. Porque a Amaz\u00f4nia j\u00e1 est\u00e1 se aproximando do ponto de n\u00e3o retorno, e a perda total dessa conectividade seria catastr\u00f3fica para o mundo todo.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma m\u00e1quina silenciosa trabalha constantemente para que milh\u00f5es de pessoas na Am\u00e9rica do Sul tenham acesso a \u00e1gua, rios e planta\u00e7\u00f5es. 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