{"id":3513,"date":"2026-09-12T12:12:58","date_gmt":"2026-09-12T15:12:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/?p=3513"},"modified":"2026-09-12T18:16:29","modified_gmt":"2026-09-12T21:16:29","slug":"mary-del-priore-mesticagem-e-a-guerra-pelo-passado-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/cafe-literario\/mary-del-priore-mesticagem-e-a-guerra-pelo-passado-do-brasil\/","title":{"rendered":"Mary Del Priore, mesti\u00e7agem e a guerra pelo passado do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Um livro de Hist\u00f3ria precisou de seguran\u00e7a refor\u00e7ada para ser lan\u00e7ado na Bienal Internacional do Livro de S\u00e3o Paulo. O dado, por si s\u00f3, deveria provocar algum desconforto.<\/p>\n<p>A historiadora Mary Del Priore e o professor Gian Melo organizaram Hist\u00f3ria das mesti\u00e7agens no Brasil, colet\u00e2nea publicada pela Editora Unesp que re\u00fane pesquisadores de diferentes institui\u00e7\u00f5es e procura examinar a forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira para al\u00e9m de explica\u00e7\u00f5es raciais bin\u00e1rias. Durante a sess\u00e3o de aut\u00f3grafos, realizada em 5 de setembro, a editora providenciou seguran\u00e7a adicional depois de Del Priore receber mensagens ofensivas e amea\u00e7as nas redes sociais. O lan\u00e7amento ocorreu normalmente, mas a controv\u00e9rsia come\u00e7ara antes.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 revista Veja, publicada em agosto, Mary Del Priore afirmou que \u201ca ideia de que a mesti\u00e7agem nasce do estupro\u201d seria um mito. Acrescentou que rela\u00e7\u00f5es entre senhores e mulheres escravizadas evidentemente existiram, mas sustentou que elas \u201cjamais\u201d constitu\u00edram regra. Para a historiadora, a forma\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a brasileira tamb\u00e9m passou por lavradores europeus, trabalhadores pobres, militares, libertos, ind\u00edgenas e diferentes grupos que estabeleceram casamentos, concubinatos e outras formas de rela\u00e7\u00e3o ao longo dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Foi o suficiente para transformar uma discuss\u00e3o historiogr\u00e1fica em batalha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Dizer que a mesti\u00e7agem brasileira n\u00e3o pode ser explicada exclusivamente pelo estupro de mulheres escravizadas \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o historicamente sustent\u00e1vel. A historiografia acumulada nas \u00faltimas d\u00e9cadas documentou fam\u00edlias constitu\u00eddas por escravizados, uni\u00f5es consensuais, casamentos entre pessoas de condi\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas distintas, alforrias, rela\u00e7\u00f5es entre libertos e livres e estrat\u00e9gias familiares de mobilidade social. Pesquisa sobre casamentos mistos em S\u00e3o Paulo, por exemplo, encontrou uni\u00f5es entre livres, escravizados e descendentes de africanos; estudos sobre Campos dos Goytacazes identificaram rela\u00e7\u00f5es entre forros, cativos e livres pobres como parte importante dos processos de mesti\u00e7agem. Isso n\u00e3o torna a escravid\u00e3o mais benigna. E muito menos elimina a viol\u00eancia sexual.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o era, por defini\u00e7\u00e3o, uma rela\u00e7\u00e3o radicalmente assim\u00e9trica de poder. Mulheres escravizadas estavam sujeitas ao dom\u00ednio de propriet\u00e1rios, administradores e outros homens livres num sistema em que a autonomia sobre o pr\u00f3prio corpo era profundamente limitada. A viol\u00eancia sexual contra mulheres negras integra a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o e seus efeitos permanecem objeto de investiga\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Reconhecer fam\u00edlias, afetos, casamentos ou estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia entre escravizados n\u00e3o autoriza ningu\u00e9m a transformar o cativeiro numa sociedade de rela\u00e7\u00f5es livremente pactuadas. \u00c9 precisamente nesse ponto que a formula\u00e7\u00e3o de Del Priore pode e deve ser discutida.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o de que o estupro \u201cjamais foi regra\u201d \u00e9 muito mais dif\u00edcil de demonstrar historicamente do que a tese segundo a qual ele n\u00e3o explica sozinho a mesti\u00e7agem brasileira. A documenta\u00e7\u00e3o preservada permite localizar casamentos, batismos, invent\u00e1rios, alforrias e fam\u00edlias. A viol\u00eancia sexual clandestina deixa, pela pr\u00f3pria natureza, registros muito mais prec\u00e1rios. Transformar sua frequ\u00eancia numa propor\u00e7\u00e3o segura exigiria uma base documental que dificilmente existe para v\u00e1rios s\u00e9culos e diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Portanto, h\u00e1 espa\u00e7o leg\u00edtimo para contestar Mary Del Priore. O que n\u00e3o h\u00e1 \u00e9 qualquer passagem racional entre contestar uma interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e amea\u00e7ar fisicamente quem a sustenta.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria apresenta\u00e7\u00e3o da obra pela Editora Unesp est\u00e1 longe de propor uma vis\u00e3o id\u00edlica da forma\u00e7\u00e3o brasileira. Os organizadores descrevem as mesti\u00e7agens como processos atravessados por \u201ctens\u00f5es\u201d e \u201cviol\u00eancias\u201d, al\u00e9m de acomoda\u00e7\u00f5es, conflitos e resist\u00eancias. Os cap\u00edtulos abordam fam\u00edlias, classifica\u00e7\u00f5es sociais, ind\u00edgenas, africanos, europeus, militares mesti\u00e7os, l\u00edngua, culin\u00e1ria, arte e literatura. A proposta declarada \u00e9 ampliar o n\u00famero de vari\u00e1veis utilizadas para compreender o fen\u00f4meno, e n\u00e3o apagar a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Existe ainda outra raz\u00e3o para a temperatura desse debate. \u201cMesti\u00e7agem\u201d deixou h\u00e1 muito tempo de ser uma palavra inocente no pensamento social brasileiro. Durante o s\u00e9culo XX, a valoriza\u00e7\u00e3o da mistura racial esteve associada a interpreta\u00e7\u00f5es que ajudaram a construir a imagem de um Brasil supostamente menos conflituoso racialmente. Essa tradi\u00e7\u00e3o foi duramente questionada por pesquisadores e pelo movimento negro porque a exist\u00eancia de miscigena\u00e7\u00e3o jamais impediu a perman\u00eancia do racismo e das desigualdades. Estudos contempor\u00e2neos continuam mostrando que mesti\u00e7agem, identidade parda e \u201cdemocracia racial\u201d permanecem categorias em disputa. Esse passado intelectual explica parte da rea\u00e7\u00e3o, embora sozinho n\u00e3o justifique a patrulha.<\/p>\n<p>O problema surge quando uma categoria historicamente controversa deixa de poder ser investigada e, quando determinada interpreta\u00e7\u00e3o passa a ser considerada moralmente proibida antes mesmo que suas fontes sejam examinadas, a pesquisa cede lugar ao tribunal. Quando insultos ou amea\u00e7as substituem livros, documentos e argumentos, j\u00e1 nem estamos mais diante de uma diverg\u00eancia acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Del Priore reagiu publicamente afirmando que estudar a mesti\u00e7agem n\u00e3o significa celebr\u00e1-la nem conden\u00e1-la. Segundo a historiadora, autores da colet\u00e2nea chegaram a enfrentar hostilidade em ambientes acad\u00eamicos, enquanto ela pr\u00f3pria recebeu insultos e amea\u00e7as antes da Bienal. Em texto divulgado nesta semana, defendeu que documentos e interpreta\u00e7\u00f5es possam ser confrontados sem que determinados assuntos se convertam em zonas proibidas de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um livro concebido justamente para sustentar que a forma\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 mais complexa do que uma oposi\u00e7\u00e3o simples entre dois grupos acabou capturado por uma discuss\u00e3o que tamb\u00e9m corre o risco de dividir o mundo em apenas dois lados: de um lado aqueles que estariam \u201capagando a viol\u00eancia da escravid\u00e3o\u201d. Do outro, os que estariam \u201ccombatendo o identitarismo\u201d. A Hist\u00f3ria \u00e9 menos confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que houve estupro, coer\u00e7\u00e3o, escravid\u00e3o, racismo e brutal desigualdade de poder. Houve tamb\u00e9m fam\u00edlias escravizadas, homens e mulheres libertos, casamentos, rela\u00e7\u00f5es inter-raciais entre pobres, ind\u00edgenas, africanos, europeus e seus descendentes, ascens\u00e3o social e m\u00faltiplas classifica\u00e7\u00f5es de cor que mudaram no espa\u00e7o e no tempo. Investigar uma dessas dimens\u00f5es n\u00e3o obriga a negar as demais.<\/p>\n<p>Pode-se discordar de Mary Del Priore. Pode-se considerar sua declara\u00e7\u00e3o excessivamente categ\u00f3rica. Pode-se confront\u00e1-la com arquivos, estat\u00edsticas, estudos demogr\u00e1ficos e outras interpreta\u00e7\u00f5es historiogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente assim que conhecimento avan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um livro de Hist\u00f3ria precisou de seguran\u00e7a refor\u00e7ada para ser lan\u00e7ado na Bienal Internacional do Livro de S\u00e3o Paulo. O dado, por si s\u00f3, deveria provocar algum desconforto. A historiadora Mary Del Priore e o professor Gian Melo organizaram Hist\u00f3ria das mesti\u00e7agens no Brasil, colet\u00e2nea publicada pela Editora Unesp que re\u00fane pesquisadores de diferentes institui\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3525,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"tmauthors":[27],"class_list":["post-3513","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-cafe-literario"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3513"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3513\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3530,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3513\/revisions\/3530"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3525"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3513"},{"taxonomy":"tmauthors","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tmauthors?post=3513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}